segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Cauim Carauna o primeiro Cauim industrial 100% Tupi

Cauim Carauna

“Produzir o Cauim industrial é um trabalho essencialmente brasileiro e essencialmente Tupi. Trata-se muito mais do resgate das nossas raízes do que da elaboração da bebida alcoólica em si”. Com essas palavras Luiz Pagano iniciou sua apresentação oficial do processo de produção do Cauim no dia 16 de marco de 2014, no Pavilhão Japonês do Ibirapuera. “Depois de quase cinco anos de pesquisa, em um trabalho quase totalmente solitário chegamos ao básico, sem se esquecer que parte fundamental desse trabalho é o de usar o máximo de tecnologia Tupi possível”.

O interesse na bebida teve inicio em 2008, quando Pagano visitou uma reserva indígena e presenciou uma cauinagem, uma festa tribal na qual toda a toda a aldeia, e pede quanta panela houver, de todas as casas e bebem a bebida obtida com a fermentação da mandioca.

Luiz Pagano, com mais de 20 anos de experiência no mercado de bebidas alcoólicas, já é tido como o criador do cauim industrial, muita gente tem seu nome fortemente associado ao Cauim, colegas do mercado e também gente da comunidade de alunos de língua Tupi/Nheengatu; “quem? o Luiz Pagano do Caim?” a ideia original por tras da bebida pode ser vista na matéria de seu blog na postagem na postagem de 2012  e postagem de 2013
Foto da esquerda: Apresentação oficial do processo de produção do Cauim no
 dia 16 de marco de 2014, no Pavilhão Japonês do Ibirapuera

Foto da direita: Entusiastas do Cauim - estrela do bar e barista Rabbitt, sommelière e estudiosa
de diversas categorias de bebidas alcoólicas Pri Mallmann e Luiz Pagano.

Similaridades com o Saquê

A festa da cauinagem e a relação da bebida com a espiritualidade de nossos índios é muito similar com a relação que o saquê tem com a religião xintoísta no Japão.

Ambas as culturas compartilham de muitos elementos em comum, dessa forma Pagano vem fazendo um trabalho conjunto com uma das maiores Sommelières de Saquê presentes no Brasil, Hikaru Sakunaga (作永ひかる) “nosso trabalho ainda está em seu estagio embrionário, mas com resultados promissores” acrescenta Pagano.

A seguir, Luiz Pagano apresenta o processo de produção industrial do Cauim, com todos os processos descritos em Tupi-Antigo, tradução e trabalho de apoio do Professor Emerson Costa.

O processo ainda está em fase de aprimoramento e registro nos órgãos responsáveis de propriedade intelectual e Ministério da Agricultura.

POCESSO DE PRODUÇAO INDUSTRIAL DO CAUIM EM TUPI ANTIGO
Por LUIZ PAGANO

“Minha primeira e grande dificuldade na produção industrial do Cauim foi promover a quebra do amido de mandioca, isso porque todas as etnias que o produzem, fazem uso da amilase presente em suas salivas, fazendo com que as mulheres virgens da aldeia as mastiguem e cuspam.

Criação do processo de produção

Primeira série de tentativas – Mastigando a mandioca - Comecei meus experimentos no ano de 2008 do zero.

Em setembro de 2013, empreendi minha primeira tentativa de produzir o cauim, fiz exatamente como os índios faziam, comprei uma ugaçaba (panelas de barro para se fazer o beiju), alguns kutés (mexedores de beiju) e demais utensílios dos próprios índios, na esperança de que os fungos endógenos dos mesmos me ajudassem no processo ( Veja postagem no blog sobre esses experimentos ).
Primeira tentativa de produzir Cauim

A parte mais interessante desse processo foi que eu e minha esposa mastigamos a mandioca e cuspimos, para transformar amido em açucares com enzimas de nossa própria saliva. O resultado foi um cauim que parecia um mingau, com baixíssima graduação alcoólica, grande frescor, mas nada higiênico (em questão de dias o odor característico da formação de bactérias dominou a bebida).

Segunda série de tentativas – Nessa fase utilizei a farinha para tapioca e promovi a quebra do amido em açúcar com α e β-amilase e para fermentação usei Saccharomyces cerevisiae indicada para cerveja de alta fermentação. O resultado foi um mingau com maior graduação alcoólica mas com um estranho sabor neutro, onde a levedura permanecia evidente.
Segunda série de tentativas de se produzir o Cauim - a α-amilase é uma enzima de cor parda que acabou dando certa tonalidade a bebida

Foi então que decidi fazer o processo japonês, tal como o dos saquês, com a adição de esporos (koji), dessa forma o sabor e complexidade do Cauim ganham infinitas possibilidades.

Uma vez criado o processo, chamado de ‘Kaûĩ apó’ e a Mestre Cauineira, profissão que em teoria só poderia ser conduzido por mulheres passa a ter o nome de ‘Kaûĩ apó sará’ (mulher que prepara o Cauim) e sua sommelière passa a se chamar 'Kunhã Maku' (mulheres servidoras).

A data oficial do nascimento dessa bebida foi 12 de outubro de 2015, dia em que o processo com os nomes em tupi ficou pronto.

Saiba por que dia 12 de outubro foi escolhido como o dia do Cauim:

1 - Dia foi escolhido pela espiritualidade de 3 etnias diferentes;
2 - Dia de nossa Senhora, padroeira do Brasil;
3 - Dia de aparecimento das primeiras flores no Pau-Brasil, em SP, em 2015;
4 - Proximidade com a abertura dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas;
5 - Foi (coincidentemente) o dia que conclui a descriçao em Tupi-Antigo do processo de fabicaçao.

A seguir, veja os processos em Tupi-Antigo:
1 – Mbeîu apó (Preparo da Tapioca, ou Beiju) -

1 – Mbeîu apó (Preparo da Tapioca, ou Beiju) -
Em tupi Mbeîu apó  significa "fazer o beiju" o processo tem inicio quando preparamos a tapioca.

Nas primeiras tentativas, a tapioca feito da forma tradicional perdia humidade muito rapidamente e o Koji parava de crescer.

Apos uma serie de tentativas, inclusive uma na qual humedecia as tapiocas, cuja o nome em tupi foi Mbeîu moakyma (Embeber o Beiju), também se mostraram ineficientes.

A boa noticia desse processo é a grande área de exposição de amido (e menor área de Zatsumi) para a ação dos esporos;
2 - Mbeîu moakyma (Embeber o Beiju) –

2 - Mbeîu moakyma (Embeber o Beiju) –
Em seguida o beiju foi embebido em água — esse processo não rendeu resultados satisfatórios;
3 - Mbeîu motimbora (colocar o beiju no vapor) –
















3 - Mbeîu motimbora (colocar o beiju no vapor) –

Aqui sim temos o processo pertinente. ao colocarmos o beiju no formato de pérolas de mandioca ( aîpi porang - literalmente = bela mandioca ),  para cozinhar, após uma boa lavagem superficial, na qual removemos todo pó de mandioca e amido residual, coloquei com agua numa panela que difere bastante do tradicional Akushiki japonês.

Após alguns minutos levei para um recipiente que desenhei com o propósito de simular as condições da sala do Koji (Koji Muro) para elevar a temperatura para 40,4ºC e fornecer as condições de humidade mais adequadas para o crescimento do fungo. ;
4 - Sabẽ nonga (Colocar os esporos) – a esquerda vemos uma coluna de mesa com serpentinas de aquecimento que dei o nome de Motimbora (vaporizador). Nela consigo manter a temperatura de 40,4ºC e humidade adequada para o crescimento do fungo 
4 - Sabẽ nonga (Colocar os esporos) – 
Para polvilhar os esporos usei uma peneira de índios Tikunas, na esperança que esporos endógenos se combinassem ao koji japonês que usei. Nesse processo denominado Sabẽ mbeîu moe’ẽ ( o esporo torna o beiju sápido) os esporos crescem por 48 horas.

A esquerda vemos a esquerda os aîpi porang afetados pelos fungos e a direita o mesmo grão sem ser afetado (controle) após 20 horas

5 – [Sabẽ] mbeîu rygynõama nonga (colocar o [mofo] com que o beiju fermenta) - 

5 – [Sabẽ] mbeîu rygynõama nonga (colocar o [mofo] com que o beiju fermenta) - 
Nessa etapa adiciono mais 3 a 4 porções de arroz afetados pelos fungos, para produzir algo parecido com o Moromi japonês, a cepa de fungos (levedura) é adicionada para promover a fermentação alcoólica (fermentar: haguino, vu), num processo conhecido como fermentação Paralela múltipla, na qual a quebra de amido em açucares acontece no mesmo momento que a fermentação alcoólica;
6 - Haguino (fermentação alcoólica) –












6 - Haguino (fermentação alcoólica) –
O Hauguino acontece por mais de dez dias em temperaturas baixas, de preferencia abaixo dos 15ºC (5ºC ~ 14ºC);
7 - Mbeîu mogûaba (coar/peneirar o beiju) –















7 - Mbeîu mogûaba (coar/peneirar o beiju) – 
Aqui nós separamos o cauim fresco do bolo de mandioca.

O processo mais indicado para se fazer isso é colocar em sacos de algodao, de 8 litros e e submete-los a uma prensa, tal qual se faz com o saquê ;
8 – Pasteur rupi kaûĩ rerekó (pasteurização) - 



















8 – Pasteur rupi kaûĩ rerekó (pasteurização) - 

literalmente, Pasteur rupi kaûĩ rerekó significa "tratar o cauim segundo Pasteur";
9 – [Ybyraygá pupé] kaûĩ moymûana (tornar o cauim antigo [no barril]) - 














9 – [Ybyraygá pupé] kaûĩ moymûana (tornar o cauim antigo [no barril]) - 
o Cauim pode ser envelhecido em barril, nessas primeiras experiencias sugerimos o barril de amburana;
10 – Kaûĩ moîese'ara (Blending) - 















10 – Kaûĩ moîese'ara (Blending) - 
Literalmente Kaûĩ moîese'ara significa "misturar cauins";
11 – Y nonga (corte com água) - 

















11 – Y nonga (corte com água) - 
O corte é feito para equilibrar a graduação alcoolica, que deve permanecer entre 11 a 16%, dependendo to tipo de Cauim que se deseja;
12 - Kamusi pupé kaûĩ moina (engarrafamento) - 















12 - Kamusi pupé kaûĩ moina (engarrafamento) -

literalmente Kamusi pupé kaûĩ moina significa "colocar o cauim no vaso".

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Catequese da floresta para salvar o mundo

Casulos habitacionais em uma samaumeira centenária - Amazônia High-Tech.
Temos que nos tornar cada vez mais YANOMAMI THËPË sermos cada vez menos NAPË. 
Nós somos tão educados na cultura européia, que achamos que esse é o único idioma cultural do mundo, mas as coisas começam a mudar e a cultura da floresta começa a se revêlar imprescindível para nossa sobrevivência no planeta.

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Recentemente Davi Kopenawa da etnia Ianomâmi, que tem sido chamado de ‘Dalai Lama da Floresta’, acompanhado por Fiona Watson, Diretora de Pesquisa da ONG Survival International, e especialista mundial em tribos isoladas. deram entrevistas para a imprensa americana e várias palestras em e ao redor de San Francisco, falando sobre o incansável trabalho para proteger a terra de sua tribo na Amazônia, e de como essa experiência pode se aplicar para o mundo.

Não é de hoje que a floresta amazônica tem sido reconhecida como um repositório de serviços ecológicos, não só para as tribos e as comunidades locais, mas também para o resto do mundo. É também a única floresta que nos sobra em termos de tamanho e a diversidade.

Sua continua queima e o aquecimento global se agravam, a saúde das florestas tropicais está intimamente relacionada à saúde do resto do mundo e o impacto do desmatamento na Amazônia continua a desfazer gradualmente os frágeis processos ecológicos que foram refinados ao longo de milhões de anos.

A solução para essa questão de como encontrar o equilíbrio necessário para a sobrevivência da floresta e conseqüentemente do planeta, não pode ser encontrado na ciência em si, mas sim na ciência aliada a questões filosóficas de povos locais, como os Ianomâmis.
Para os Ianomâmi o mundo é dividido em dois grupos de indivíduos, a dos YANOMAMI THËPË (seres humanos, gente) e a dos NAPË (nos, homens brancos, os inimigos os ‘ferozes’)

Os ianomâmis já foram tidos como um povo ‘feroz’ na sensacionalista e atrasada obra Yanomamö: The Fierce People (Yanomamö: O Povo Feroz), de antropólogo americano Napoleon Chagnon, que os descreve como “manhosos, agressivos, e intimidadores” e até hoje é tida como a bíblia do recém graduado de antropologia, levando o resto do mundo a idéias cada vez mais preconceituosas.

O bom é que isso vem mudando com o tempo, e passamos a ouvir cada vez mais a sabedoria do povo da floresta - do ponto de vista Ianomâmi o mundo é dividido em dois grupos de indivíduos, a dos YANOMAMI THËPË (seres humanos, gente) e a dos NAPË (nos, homens brancos, os inimigos os ‘ferozes’).

A floresta não se queima por si só e os rios não se auto-poluem, são os NAPË que o fazem.

A poluição de rios é reflexo de uma postura ativa dos NAPË, se deixarmos de jogar poluentes nos rios Tiete e Pinheiros no perímetro urbano, por exemplo, teríamos os rios limpos em questão de semanas. De fato, nós os NAPË somos proativos em poluir e devastar, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente.

Se perguntarmos a um índio Ianomâmi, o que ele acha do homem branco - NAPË, acabamos por ter vergonha de sua resposta.
Nadar na imensidão dos rios Amazonas e Tocantins me fez entrar em contato espiritual com a cultura YANOMAMI THËPË. O homem branco se considera único e diferente dos outros seres ao seu redor, - Os NAPË vivem sob o conceito de ‘silêncio dos espaços infinitos de Blaise Pascal’, estamos sozinhos, em um monologo. Os Ianomâmis não, eles são capazes de amar e dialogar com tudo e com todos ao seu redor.

De acordo com os índios Ianomâmis, o NAPË, não pensa em nada, não ama a terra, não ama a floresta, tem uma visão egoísta, inconseqüente e de curto prazo. Os conceitos dos Ianomâmis parecem ser muito mais elevados e muitas vezes de difícil concepção para nossa cultura, por isso resolvi classificá-los em grupos:

O conceito de ‘ser vivo’

O ‘ser vivo’ dos Ianomâmis é o que tratamos como ‘gente’, expresso como YANOMAMI THËPË.

O NAPË (homem branco) parece se importar apenas com ele mesmo e em nível secundário, com seus familiares diretos. Esse sentimento tende a diminuir com seus vizinhos e familiares distantes e são quase inexistentes para as outras pessoas do mundo, mas o lado positivo é que ele adota animais de estimação e isso parece ser um pequeno indicio de amor a outros ‘seres vivos’ que não pertença a classificação de Homo sapiens .
Os Ianomâmis são capazes de dialogar com tudo e com todos ao seu redor.

É muito comum ver índias amamentando seu bebe em um dos seios e um macaco, ou outro animal no outro, cena que causa incompreensão e repulsa ao homem branco que a presencia pela primeira vez. Para os índios esses animaizinhos também são ‘gente’ e tem direito ao leite materno, que não é da mulher mas sim da natureza.

Toy Art Yanomami


O homem branco se considera único e diferente dos outros seres ao seu redor, - Os NAPË vivem sob o conceito de ‘silêncio dos espaços infinitos de Blaise Paschoal’, estamos sozinhos, em um monologo. Os Ianomâmis não, eles são capazes de dialogar com tudo e com todos ao seu redor.

Para eles, quase tudo é ‘ser vivo’, ou ‘gente’ – o animal é gente, a planta é gente e até mesmo alguns artefatos também são tidos como gente, e essa ‘gente’ toda jamais deveria ser incomodada, e muito menos ofendida.
É muito comum ver índias amamentando seu bebe em um dos seios e um macaco, ou outro animal no outro, cena que causa incompreensão e repulsa ao homem branco que a presencia pela primeira vez. Para os índios esses animaizinhos também são ‘gente’ e tem direito ao leite materno, que não é da mulher mas sim da natureza.

Para os Ianomâmis, ninguém gosta de ser ofendido e cada vez que isso acontece, o ofendido se manifesta contra o ofensor.

Dessa forma, surgem algumas conseqüências e indagações, tais como:

- O que acontece se matamos um animal para comer? – matar um ser vivo é uma ofensa muito grave, mesmo que este tenha o titulo de YARO (animais de caça). isso não os impede de matar os YARO, mesmo conscientes de que sua morte terá conseqüências.

Eles pensam, “ao matarmos esses seres, aguarde pela reação que pode se manifestar de diversas formas, pode ser pequena indigestão, ou até mesmo na forma do ataque de outros animais do grupo, por exemplo de onças, parceiras do animal morto.

O conceito de ‘propriedade’ 

Nós não temos terra, a terra é que nos tem. A propriedade aos bens físicos é intangível posto que nossa matéria é perecível. Tais posses podem levar ao sofrimento (tal como no budismo).

- a Amazônia é importante pois dela vem o conhecimento que devemos ter para superarmos a crise civilizatória, de degradação do ambiente.

O conceito de ‘Evolução’

Os NAPË estão num estado de evolução inferior aos YANOMAMI THËPË  (os próprios ianomâmis), porem existem seres mais evoluídos, como os YAI, seres da floresta isentos de nome.

É nessa hora que o leitor fica indignado - como eles podem nos achar mais atrasados que eles?

Existem diversas formas de nos fazer ver o quão pouco evoluídos somos em comparação, por exemplo a questão do lixo.

Na natureza, o lixo de qualquer ser vivo se incorpora como utilidade para outro ser vivo (eg.  as fezes de mamíferos viram fertilizantes para plantas, o oxigênio expurgado pela arvore vira o ar que respiramos, etc.). Nós os NAPË, produzimos uma enorme quantidade de lixo que mais prejudica do que ajuda outros seres vivos.

A relação dos YAI com os YANOMAMI THËPË e com os NAPË é a mesma que nos, homens brancos, temos com as amebas.

O homem tem percepção de 4 dimensões, capacidade de raciocinar sobre os acontecimentos ao seu redor, lê livros, constrói pontes e observa as amebas no microscópio. As amebas por sua vez vivem num mundo muito mais limitado, tem diminuta capacidade de percepção que as possibilitam apenas comer formas vivas ao seu redor, não são capazes de ler nem, muito menos de construir pontes.

Os YAI nos observam como nós, homens observamos as amebas, sem que sequer nos demos conta. São infinitamente superiores e transitam por dimensões ainda inconcebíveis para nós.

O conceito de ‘URIHI’ - palavra Ianomâmi para floresta, ecossistema

A palavra yanomami UHIRI designa a floresta tudo que nela habita, com conexões e inter-relações infinitas, IPA URIHI, "minha terra", pode referir-se à região de nascimento ou à região de moradia atual do enunciador. URIHI pode ser, também, o nome do mundo: UHIRI A PREE, "a grande terra-floresta".
Nós os NAPË, somos a única espécie do planeta que produzimos lixo sem que esse entre em equilíbrio com o ecossistema.

A floresta amazônica é a maior região de floresta continua do planeta, corta nove países, corresponde a 60% do território brasileiro, quase 6 milhões de km2. O Rio Amazonas tem 6.800km de extensão, 105km a mais do que o Nilo de acordo com a medição de 2007, nele se encontra 20% da água doce do mundo.

Atualmente 18% da floresta já foi devastada, essa devastação aparece na forma de Pecuária extensiva e de baixa inteligência, propriedade ilegal, garimpo irregular.

Parece pouco mas 1% de área devastada, o mesmo índice de desmatamento em 1975, 60mil km2 é maior do que o estado do Rio de Janeiro ( aprox. 43.000km2).

O Brasil pode ser muito ruim no que diz respeito com o trato com os rios de suas capitais principalmente devido a corrupção e motivos eleitoreiros, mas trabalhos isolados na Amazônia chamam a atenção pela genialidade.

Não podemos colocar uma cúpula de proteção sobre a Amazônia

A proteção ambiental só pode acontecer se não se opor as enormes forças econômicas, portanto temos que atribuir valor para floresta em pé, e não desmatada.

Tudo que temos que fazer é usar a inteligência YANOMAMI THËPË para nos guiar. Mais dia, menos dia, as arvores muito velhas caem naturalmente como parte do processo de renovação, parte do ciclo natural da floresta. Se bem monitoradas, essas arvores podem ter suas quedas administradas por agrônomos legais e sua madeira pode ser utilizada com mais inteligência.

Um tronco de uma sumaumeira centenária vale pouco mais de R$10,00 no mercado negro, enquanto que um belo artesanato feito com pouco mais de 50 cm de comprimento da mesma arvore pode chegar a valer R$ 300,00.

Este é um bom exemplo de como transformar uma atitude NAPË em YANOMAMI THËPË
Ciencia aliada a filosofia Yanomami  -  A nossa única saída para salvar o planeta. Um veiculo de baixo impacto em destruição do solo corta uma samaumeira, num processo de renovação inteligente da selva Amazônica.

Creio que o grande fato gerador dos problemas da Amazônia atual foi o PIN, Programa de Integração Nacional, programa de cunho geopolítico criado pelo governo militar brasileiro através do Decreto-Lei Nº1106, de 16 de julho de 1970, assinado pelo Presidente Médici.

Preocupados em perder o vasto território amazônico pela dificuldade de monitorar suas fronteiras, o governo militar propôs realocar as vitimas da improdutividade das regiões de seca nordestina e transformá-los em mão de obra na prospera região amazônica, dessa forma ocupar os vazios demográficos amazônicos, "integrar para não entregar" e "terra sem homens para homens sem terras" foram as palavras de ordem da época.

O PIN teve o maravilhoso mérito de mobilizar o sentimento nacionalista, independentemente de visão política e promover a colonização da Amazônia.

A rodovia Transamazônica foi a ferramenta escolhida por Médici como via de acesso à floresta. Com 4 223 km de comprimento, ligando a cidade de Cabedelo, na Paraíba à Lábrea, no Amazonas, a estrada corta sete estados brasileiros: Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e Amazonas.
Num futuro próximo o sistema agro-florestal poderá ter a ajuda de drones coletores para promover agricultura de baixo impacto ambiental. No sistema agrícola de hoje nós desmatamos as florestas para depois plantar, com o propósito de limpar o terreno e assim, facilitar a entrada das nossas antiquadas maquinas agrícolas - com o advento dos drones coletores não precisaremos mais levar a cabo um processo tão pouco inteligente. 

Ao lado da estrada algumas rotas surgiram, e dessas outras ruas pequenas, ligando as fazendas, comunidades e casas - a chamada espinha de peixe, é a causa para a ocupação irregular e o consequente desmatamento.

O homem do nordeste, em sua grande maioria, junto com outros de outras regiões do Brasil e do mundo, que lá chegaram encontraram grande facilidade em ter cabeças de gado, posto que para se obter a posse da terra eles somente tinham que transformar 50% de suas terras em pastagem.
Um sistema de inteligencia artificial avalia as frutas e hortaliças por meio de sensores bem mais sofisticados que nossos olhos, braços robóticos colhem as frutas e as colocam numa cesta circular, a bordo de um drone coletor.

Hoje existem 60.000.000 cabeças de gado na Amazônia, uma relação de 3 bois para cada habitante da região.

Como mudar a filosofia NAPË em YANOMAMI THËPË?

Nós NAPË olhávamos a floresta como mato não como fazenda, se quisermos plantar algo ali, temos que desmatar para depois plantar, mas índios locais inspiraram um grupo de japoneses a criar os chamados SISTEMAS AGRO-FLORESTAIS.
Hajime Yamada chegou em Tomé-Açú no dia 22 de setembro de 1929, aprendeu com os indígenas a tecnologia do sistema agro-florestal, nós sempre olhamos a floresta como mato não como fazenda (foto: documentário Amazônia Eterna)

Um grupo de imigrantes japoneses chegou ao município de Tomé-Açu, no Pará, no fim da década de 1920 com proposta de plantar da pimenta-do-reino, Nos anos 70 com a queda dos preços e epidemias nos pimentais fez com que repensassem seu negocio.

Baseado em antigo conhecimento indígena, eles passaram a cultivar a pimenta-do-reino no mesmo espaço do cacau, bem como com o cupuaçu, mamão, açaí, coco, maracujá, castanha-do-pará, borracha natural e paricá. A praga dos pimentais foi combatida por predadores locais, trazidas pelas outras plantas, em equilíbrio com a natureza.

De lá para cá, o sistema foi aperfeiçoado na base da tentativa e do erro para a escolha das melhores combinações de espécies. Hoje, Tomé-Açu é referência nesse tipo de plantio e a cooperativa acumula diversos prêmios relacionados a empreendedorismo e sustentabilidade.

Além disso, a CAMTA promove e orienta a adoção dos sistemas agro-florestais para agricultura familiar em municípios vizinhos e realiza a comercialização dessa produção, um projeto que atende cerca de mil famílias da região.
Robos de extração de látex funcionam de forma autonoma, abastecidos com a luz do sol. As 'estradas de seringa' (os riscos feitos na casaca das seringueiras) são precisos, pois contam com sofisticados sensores que fazem cálculos precisos para melhor aproveitar a extração. 

A idéia básica desse sistema agro-florestal é realizar o plantio integrado de diferentes espécies vegetais, de tamanho variado, juntas em uma mesma área, formando diversos 'andares' – o processo recebe justamente o nome de agricultura em andares.

O sistema agro-florestal, conhecido dos povos indígenas já a muito tempo, oferece uma série de vantagens como:

- Como gera grande quantidade de matéria orgânica no solo proveniente de diversas culturas, há menos necessidade de adubos e agrotóxicos;

- Essa variedade de nutrientes gera alimentos mais saudáveis;

- A cobertura vegetal abundante também retém a umidade da terra, protege as plantações do Sol e proporciona um ambiente mais agradável para o trabalho no campo;

- O plantio de diversas culturas ao mesmo tempo permite a produção continuada e gera renda durante o ano todo.
Parte importante da filosofia YANOMAMI THËPË é que 'lixo não existe', não podemos jogar nada fora (fora de onde? do planeta?). Isso posto, todos os equipamentos são 100% reciclados para produção de novos equipamentos, substancias que não podem ser utilizadas em outros equipamentos são reintegradas na natureza por compostagem. Todas instalações tem imensas claraboias pois 80% dos equipamentos funcionam com energia solar.

Depois de tanto tempo catequizando nossos índios de acordo com heranças culturais européias, agora  chegou a hora de nos catequizarmos nos moldes do povo da floresta, quem sabe assim poderemos salvar nossas almas e nossas vidas.