terça-feira, 21 de abril de 2015

Projeto TEMBI-U

O Projeto Tembi-u trouxe de volta as chamadas ‘festas de exploradores’, que eram feitas pelas famílias paulistanas no final do século XVI.
O movimento T-Pop (Tupi Pop) e o blog ‘Ame o Brasil’ resgatam mais um pouco da historia paulistana e trazem para os dias atuais, os rituais brasílicos antigos - no mais recente deles, o Projeto Tembi-u, Luiz Pagano (criador desse blog) trouxe de volta as chamadas ‘festas de exploradores’, que eram feitas pelas famílias paulistanas no final do século XVI.

Assista ao video do evento 'Projeto Tembi-u'

Quase quinhentos anos depois, Pagano e sua equipe, trazem para o planalto paulistano os elementos da alta gastronomia da Belém amazônica, para uma festa, onde mostra aos integrantes do já bastante evoluído mundo da coquetelaria.
 
João Ramalho e Bartira experimentando frutos de regiões mais afastadas da planície Paulistana
A inspiração para fazer o Projeto Tembi-u veio de pesquisas feitas sobre a historia da Vila de São Paulo de Piratininga do final do século XVI, mais exatamente na área que corresponde ao alto de uma colina escarpada, entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, próximo ao colégio (hoje Pátio do Colégio), que funcionava num barracão feito de taipa de pilão, que tinha, por finalidade, a catequese dos índios da etnia Guianas que viviam na região.

Nessa região, aproximadamente no ano de 1580, encontrávamos a residência da família de João Ramalho e Bartira, bem como a de diversas outras famílias de portugueses que acabaram por se casarem com índios. Algumas dessas famílias aderiram a catequese dos padres jesuítas, no entanto outras continuavam seguindo as tradições dos índios. Foi exatamente dessas famílias que trouxemos a tradição das ‘festas de exploradores’.

Apesar de protegida por relevos naturais, essa região não tinha muitas riquezas naturais, os habitantes locais viviam de uma modesta policultura de subsistência, baseada no milho, no qual a canjica, fubá e o angu, eram seus pratos principais. Ocasionalmente o rio Tamanduaí  oferecia grande quantidade de peixes, que eram pescados e colocados a secar (Piratininga significa em tupi – peixe a secar).

A única forma desses habitantes terem acesso a frutas, pesca e caça diferentes, era se aventurando a leste, para além da serra do mar, a também chamada de "Serra de Paranapiacaba" e enfrentar os terríveis Tupinambás do litoral, ou irem para o oeste, em direção ao interior de São Paulo, cuja a passagem menos íngreme do sistema de serras era indicada pelo Pico do Jaraguá (Jaraguá em tupi significa o guardião do vale).
 
Habitantes da Vila de São Paulo de Piratininga tinham que passar pelo Pico do Jaraguá (guardiões do vale em Tupi Antigo) para chegar ao interior
Alem de anunciar as riquezas naturais para os habitantes do planalto Paulistano, o Pico do Jaraguá chegou até mesmo a oferecer ouro. Décadas após a chegada de Luís Martins, o mameluco Afonso Sardinha descobriu ouro no Jaraguá, dando início à chamada febre do ouro paulista.

Mais tarde, quando se falava em bandeirantes, os paulistanos eram os mais mencionados. Isto porque foram os mamelucos de São Vicente, Santo André e São Paulo dos Campos de Piratininga, os que mais se dedicaram ao sertanismo, se comparados às bandeiras baianas, pernambucanas, maranhenses e amazônicas.

Até meados do século XVIII, as ‘festas de exploradores’ eram feitas para celebrar diversos acontecimentos entre povos indígenas, tais como o Pitanga areme (nascer de uma criança), maran-iré (a vitoria numa guerra), ou o rembé mombuká (furar de lábios de jovens índios para a colocação do botoque). As celebrações mais importantes dos Perós (Portugueses) eram as conquistas feitas nas bandeiras, e posteriormente mostrá-las aos moradores da planície.

Provavelmente essas festas foram extintas no mesmo momento em que houve a proibição da língua indígena pelo Marquês de Pombal em 1758.

Quanto ao nome do projeto

Não sabemos ao certo que nome era dado a essas ‘festas de expedição’, no entanto escolhemos ‘Tembi-u’ pois segundo o Professor Emerson Costa, teria o significado de "Gastronomia" em idioma neológico Guarani, traduzido como "tembi'uapokuaa" que literalmente significa "saber (ou ciência de) fazer comida".

Em tupi dá para forjar com elementos cognatos "mbi'uapokuaba". O nome, que designa o objeto da ação em relação ao agente, forma-se dos temas transitivos, com o prefixo emi- (embi-).

Os temas destes nomes pertencem à classe II, podendo sua forma absoluta ser formada pela perda de e- inicial ou pela prefixação de t-. Exs.:
t. ú I tr. “comer”, n. obj. embi-ú:

Ainda para a escolha do nome, não quisemos usar o termo pepyra (m-) - festa ritual de comer e beber; banquete um antropofágico – pois não tinha o canibalismo em mente para essa festa de bons sabores, alem do que, isso poderia ser mal entendido por religiosos e pela imprensa.

Discernindo sobre o canibalismo, fiquei muito feliz de o evento ter sido comparado com a ‘semana de arte moderna de 1922 da coquetelaria’, em seu aspecto antropofágico de deglutir as técnicas mundiais, para em nossa digestão, termos uma mixologia 100% brasileira. É importante que se diga que não tive a intenção de romper com valores europeus, posto que a festa foi patrocinada pela multinacional francesa de bebidas Pernod Ricard em sua ativação ‘Clube do Barman’ e nem a pretensão de promover um evento com o cunho artístico do de Mario de Andrade e Tarsila do Amaral.

A festa do dia 06 de Abril de 2015

Para promover a festa do Projeto Tembi-u com aproximadamente 50 convidados, a exemplo das ‘festas de expedições’ antigas, Luiz Pagano, o idealizador do projeto e a equipe de mixologistas da Pernod Ricard, James Guimarães - co-idealizdor, Alan Souza de Fortaleza e Rafael Mariachi de São Paulo fizeram uma expedição a Amazônia Paraense para coletar dados e elementos locais.
 
Na expedição na região amazônica, Luiz Pagano e sua equipe de mixologistas tiveram os irmãos Tiago e Felipe Castanho como guia para conhecer não só as frutas e ervas da região, mas a riqueza de seu povo e sua sustentabilidade

Na festa que aconteceu no ultimo dia 6 no Centro Cultural Rio Branco, que promete ser a primeira de uma serie de muitas, tivemos os deliciosos e sofisticados quitutes da chefe Regina Pellegrino e contou com a presença dos Irmãos Thiago e Felipe Castanho, importantes chefes de cozinha, que lideram pesquisas locais no que diz respeito a floresta amazônica, mentores de conceituados chefes de cozinha como Alex Atala e Ferran Adriá, Os irmãos Castanho também são proprietários dos restaurantes Remanso do Peixe e Remanso do Bosque em Belém.

Convocamos um debate entre os integrantes do time, os irmãos e os convidados, com o intuito de relevar o importante papel que temos, de mostrar os elementos brasileiros de excelência, bem como do manejo sustentável de ingredientes e a valorização do nosso povo.

Durante o debate, foram apresentados os drinks criados pelos mixologistas, e no final da palestra, uma mesa com quase uma centena de frutas e ervas trazidas da região amazônica, oferecia aos barmans ingredientes únicos para criarem seus próprios drinks e manifestarem seu aprendizado.
 
O evento chegou a ser comparado com a semana de arte moderna de 1922 para a gastronomia e coquetelaria - T'ereîkokatu! (Saúde!, que te sucedam bem os acontecimentos – em Tupi antigo)
Cada vez que surgia um brinde no evento, usávamos o termo T'ereîkokatu! (Saúde!, que te sucedam bem os acontecimentos – em Tupi antigo).



Outras referencias

Pouco mais quanto ao povo que habitou a São Paulo de 1582

Theodoro Sampaio conta um pouco sobre o cotidiano de nosso povo naquele tempo:

"E' facto que, quanto á nacionalidade do gentio de Piratininga, nenhum dos antigos historiadores ou chronistas é assas explicito, mas dizem o bastante para se fixar o habitat da nação Guayanã.
...
Vê-se, portanto, do testemunho dos viajantes, historiadores e até dos archivos das camarás municipaes da Capitania de S. Vicente que nada menos de cinco nações gentias a habitaram no primeiro século do descobrimento: Guayanãs, Tupis, Tupinaês, Tupininquis, Maramomis, não fallando já dos Tamoyos do valle superior do Parahyba. Destas nações, a dos Guayanãs, certamente, occupava o littoral visinho de S. Vicente, como dominava nos campos de Piratininga que o chronista Vasconcellos chamou Campos Eliseos da gentilidade.
...
Azevedo Marques diz ter encontrado no Cartório da Provedoria da Fazenda de S. Paulo, o titulo de uma sesmaria de três léguas na paragem chamada Carapicuhyba, concedida por Jeronymo Leitão aos Índios Guayanãs, oriundos de Piratininga. O mesmo autor, apoiando-se em Pedro Taques, dá-nos a cidade de Taiibaté como tendo sido em sua origem uma aldêa de Índios Guayanãs, emigrados de Piratininga.
...
Mas essa diíferença da lingua Guayanã para o tupi ou para o guarany não ia além da dialectal como, a propósito, opina o Visconde de Porto Seguro. O mesmo Gabriel Soares assim o dá a entender quando nos diz: «... a lingua deste gentio é différente da de seus visinhos, mas entende-se com os Carijós. Reconhece-se, portanto, que a differença lingüística entre os Carijós e os Tupis que lhes ficavam ao norte, pela costa, não era senão a dialectal, a mesma que se nota entre o Guarani/, falado nas margens do Paraguay e a lingua geral, dos primitivos habitadores do littoral brazilico.
...
escrevia Anchieta, é evidentemente tupi e deve ter sido empregado pelos desta língua para designar um povo pacifico, ou pouco belicoso como, de facto, o era aquelle que habitava os campos de Piratininga, gente mouar, fácil de crer em tudo, não tomando iniciativa nos ataques aos seus contrários, não matando os seus prisioneiros.

Guayanã no guarany como no tupi significa ao pé da lettra verdadeiramente manso^ bonachão, derivado de guaya (manso, brando, pacifico), e nã (na verdade, certamente). Vê-se que não é um nome propriamente de nação, mas um appellido, ou designação baseada em seu caracter e génio, dada pelos seus visinhos.

E Anchieta em 1585 dizia a seu Geral que São Paulo “terra de grandes campos era fertilíssima de muitos gados, de bois, porcos e cavalos”.

Segundo Gabriel Soares os porcos paulistanos eram, em 1587, abundantíssimos e notáveis pelo tamanho, “animais de carnes muito gordas e saborosas, fazendo vantagens às das outras capitanias por provirem de terra mais fria”.

Manadas de cavalos viviam errabundas pelos campos.

À noite, soltos pelas ruas da vila, transitavam bovinos e eqüinos.

Em 1598 o procurador Pedro Nunes denunciava que tais animais “faziam muitas perdas às casas e benfeitorias e se caíam muitas paredes”.
...

S. Paulo, 24 de Fevereiro de 1897."
 
Que as festas de expedições - Tembi-u - sejam cada vez mais realizadas em solo brasileiro 
Outras notas quanto a gramática Tupi Antiga

1as. xe-r-embi-ú “o que eu como”,
abs. mbi-ú ou t-embi-ú “o que a gente come”; t. moñáng I tr. “fazer”, n. obj. emi-moñáng:

3a c. s-emi-moñang- -a “o que ele faz, a obra dele”, abs. mi-moñáng-a ou t-emi-moñáng-a “o que a gente faz, obra de gente”; t. suú I tr. “mastigar”, n. obj emi-nduú (cf. 0.3.a):

1as. xe-r-emi-nduú “o que eu mastigo, coisa mastigada por mim”, abs. mi-nduú ou t-emi-nduú “coisa mastigada por gente”; t. kaú I tr. “fazer mingau”, n. obj. emi-ngaú (0.3.a): abs. mi-ngaú “mingau”.

7.4.2. Os tempos dos nomes de objeto formam-se regularmente:
pres. xe- r-emi-ú “o que eu como, minha comida”,
fut. xe-r-emi-ú-r-ám-a “o que eu comerei, o que será minha comida”,
pret. xe-r-emi-ú-p-ûér-a, “o que eu comi,

Aryon Dall’Igna Rodrigues
Volume 3, Número 1, Julho de 2011 81
Morfologia do verbo Tupí

o que foi minha comida”, pret. irreal, xe-r-emi-ú-r-á-mb-ûér-a “o que eu devia ter comido, mas não comi”.