segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Cauim Carauna o primeiro Cauim industrial 100% Tupi

Cauim Carauna

“Produzir o Cauim industrial é um trabalho essencialmente brasileiro e essencialmente Tupi. Trata-se muito mais do resgate das nossas raízes do que da elaboração da bebida alcoólica em si”. Com essas palavras Luiz Pagano iniciou sua apresentação oficial do processo de produção do Cauim no dia 16 de marco de 2014, no Pavilhão Japonês do Ibirapuera. “Depois de quase cinco anos de pesquisa, em um trabalho quase totalmente solitário chegamos ao básico, sem se esquecer que parte fundamental desse trabalho é o de usar o máximo de tecnologia Tupi possível”.

O interesse na bebida teve inicio em 2008, quando Pagano visitou uma reserva indígena e presenciou uma cauinagem, uma festa tribal na qual toda a toda a aldeia, e pede quanta panela houver, de todas as casas e bebem a bebida obtida com a fermentação da mandioca.

Luiz Pagano, com mais de 20 anos de experiência no mercado de bebidas alcoólicas, já é tido como o criador do cauim industrial, muita gente tem seu nome fortemente associado ao Cauim, colegas do mercado e também gente da comunidade de alunos de língua Tupi/Nheengatu; “quem? o Luiz Pagano do Caim?” a ideia original por tras da bebida pode ser vista na matéria de seu blog na postagem na postagem de 2012  e postagem de 2013
Foto da esquerda: Apresentação oficial do processo de produção do Cauim no
 dia 16 de marco de 2014, no Pavilhão Japonês do Ibirapuera

Foto da direita: Entusiastas do Cauim - estrela do bar e barista Rabbitt, sommelière e estudiosa
de diversas categorias de bebidas alcoólicas Pri Mallmann e Luiz Pagano.

Similaridades com o Saquê

A festa da cauinagem e a relação da bebida com a espiritualidade de nossos índios é muito similar com a relação que o saquê tem com a religião xintoísta no Japão.

Ambas as culturas compartilham de muitos elementos em comum, dessa forma Pagano vem fazendo um trabalho conjunto com uma das maiores Sommelières de Saquê presentes no Brasil, Hikaru Sakunaga (作永ひかる) “nosso trabalho ainda está em seu estagio embrionário, mas com resultados promissores” acrescenta Pagano.

A seguir, Luiz Pagano apresenta o processo de produção industrial do Cauim, com todos os processos descritos em Tupi-Antigo, tradução e trabalho de apoio do Professor Emerson Costa.

O processo ainda está em fase de aprimoramento e registro nos órgãos responsáveis de propriedade intelectual e Ministério da Agricultura.

POCESSO DE PRODUÇAO INDUSTRIAL DO CAUIM EM TUPI ANTIGO
Por LUIZ PAGANO

“Minha primeira e grande dificuldade na produção industrial do Cauim foi promover a quebra do amido de mandioca, isso porque todas as etnias que o produzem, fazem uso da amilase presente em suas salivas, fazendo com que as mulheres virgens da aldeia as mastiguem e cuspam.

Criação do processo de produção

Primeira série de tentativas – Mastigando a mandioca - Comecei meus experimentos no ano de 2008 do zero.

Em setembro de 2013, empreendi minha primeira tentativa de produzir o cauim, fiz exatamente como os índios faziam, comprei uma ugaçaba (panelas de barro para se fazer o beiju), alguns kutés (mexedores de beiju) e demais utensílios dos próprios índios, na esperança de que os fungos endógenos dos mesmos me ajudassem no processo ( Veja postagem no blog sobre esses experimentos ).
Primeira tentativa de produzir Cauim

A parte mais interessante desse processo foi que eu e minha esposa mastigamos a mandioca e cuspimos, para transformar amido em açucares com enzimas de nossa própria saliva. O resultado foi um cauim que parecia um mingau, com baixíssima graduação alcoólica, grande frescor, mas nada higiênico (em questão de dias o odor característico da formação de bactérias dominou a bebida).

Segunda série de tentativas – Nessa fase utilizei a farinha para tapioca e promovi a quebra do amido em açúcar com α e β-amilase e para fermentação usei Saccharomyces cerevisiae indicada para cerveja de alta fermentação. O resultado foi um mingau com maior graduação alcoólica mas com um estranho sabor neutro, onde a levedura permanecia evidente.
Segunda série de tentativas de se produzir o Cauim - a α-amilase é uma enzima de cor parda que acabou dando certa tonalidade a bebida

Foi então que decidi fazer o processo japonês, tal como o dos saquês, com a adição de esporos (koji), dessa forma o sabor e complexidade do Cauim ganham infinitas possibilidades.

Uma vez criado o processo, chamado de ‘Kaûĩ apó’ e a Mestre Cauineira, profissão que em teoria só poderia ser conduzido por mulheres passa a ter o nome de ‘Kaûĩ apó sará’ (mulher que prepara o Cauim) e sua sommelière passa a se chamar 'Kunhã Maku' (mulheres servidoras).

A data oficial do nascimento dessa bebida foi 12 de outubro de 2015, dia em que o processo com os nomes em tupi ficou pronto.

Saiba por que dia 12 de outubro foi escolhido como o dia do Cauim:

1 - Dia foi escolhido pela espiritualidade de 3 etnias diferentes;
2 - Dia de nossa Senhora, padroeira do Brasil;
3 - Dia de aparecimento das primeiras flores no Pau-Brasil, em SP, em 2015;
4 - Proximidade com a abertura dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas;
5 - Foi (coincidentemente) o dia que conclui a descriçao em Tupi-Antigo do processo de fabicaçao.

A seguir, veja os processos em Tupi-Antigo:
1 – Mbeîu apó (Preparo da Tapioca, ou Beiju) -

1 – Mbeîu apó (Preparo da Tapioca, ou Beiju) -
Em tupi Mbeîu apó  significa "fazer o beiju" o processo tem inicio quando preparamos a tapioca.

Nas primeiras tentativas, a tapioca feito da forma tradicional perdia humidade muito rapidamente e o Koji parava de crescer.

Apos uma serie de tentativas, inclusive uma na qual humedecia as tapiocas, cuja o nome em tupi foi Mbeîu moakyma (Embeber o Beiju), também se mostraram ineficientes.

A boa noticia desse processo é a grande área de exposição de amido (e menor área de Zatsumi) para a ação dos esporos;
2 - Mbeîu moakyma (Embeber o Beiju) –

2 - Mbeîu moakyma (Embeber o Beiju) –
Em seguida o beiju foi embebido em água — esse processo não rendeu resultados satisfatórios;
3 - Mbeîu motimbora (colocar o beiju no vapor) –
















3 - Mbeîu motimbora (colocar o beiju no vapor) –

Aqui sim temos o processo pertinente. ao colocarmos o beiju no formato de pérolas de mandioca ( aîpi porang - literalmente = bela mandioca ),  para cozinhar, após uma boa lavagem superficial, na qual removemos todo pó de mandioca e amido residual, coloquei com agua numa panela que difere bastante do tradicional Akushiki japonês.

Após alguns minutos levei para um recipiente que desenhei com o propósito de simular as condições da sala do Koji (Koji Muro) para elevar a temperatura para 40,4ºC e fornecer as condições de humidade mais adequadas para o crescimento do fungo. ;
4 - Sabẽ nonga (Colocar os esporos) – a esquerda vemos uma coluna de mesa com serpentinas de aquecimento que dei o nome de Motimbora (vaporizador). Nela consigo manter a temperatura de 40,4ºC e humidade adequada para o crescimento do fungo 
4 - Sabẽ nonga (Colocar os esporos) – 
Para polvilhar os esporos usei uma peneira de índios Tikunas, na esperança que esporos endógenos se combinassem ao koji japonês que usei. Nesse processo denominado Sabẽ mbeîu moe’ẽ ( o esporo torna o beiju sápido) os esporos crescem por 48 horas.

A esquerda vemos a esquerda os aîpi porang afetados pelos fungos e a direita o mesmo grão sem ser afetado (controle) após 20 horas

5 – [Sabẽ] mbeîu rygynõama nonga (colocar o [mofo] com que o beiju fermenta) - 

5 – [Sabẽ] mbeîu rygynõama nonga (colocar o [mofo] com que o beiju fermenta) - 
Nessa etapa adiciono mais 3 a 4 porções de arroz afetados pelos fungos, para produzir algo parecido com o Moromi japonês, a cepa de fungos (levedura) é adicionada para promover a fermentação alcoólica (fermentar: haguino, vu), num processo conhecido como fermentação Paralela múltipla, na qual a quebra de amido em açucares acontece no mesmo momento que a fermentação alcoólica;
6 - Haguino (fermentação alcoólica) –












6 - Haguino (fermentação alcoólica) –
O Hauguino acontece por mais de dez dias em temperaturas baixas, de preferencia abaixo dos 15ºC (5ºC ~ 14ºC);
7 - Mbeîu mogûaba (coar/peneirar o beiju) –















7 - Mbeîu mogûaba (coar/peneirar o beiju) – 
Aqui nós separamos o cauim fresco do bolo de mandioca.

O processo mais indicado para se fazer isso é colocar em sacos de algodao, de 8 litros e e submete-los a uma prensa, tal qual se faz com o saquê ;
8 – Pasteur rupi kaûĩ rerekó (pasteurização) - 



















8 – Pasteur rupi kaûĩ rerekó (pasteurização) - 

literalmente, Pasteur rupi kaûĩ rerekó significa "tratar o cauim segundo Pasteur";
9 – [Ybyraygá pupé] kaûĩ moymûana (tornar o cauim antigo [no barril]) - 














9 – [Ybyraygá pupé] kaûĩ moymûana (tornar o cauim antigo [no barril]) - 
o Cauim pode ser envelhecido em barril, nessas primeiras experiencias sugerimos o barril de amburana;
10 – Kaûĩ moîese'ara (Blending) - 















10 – Kaûĩ moîese'ara (Blending) - 
Literalmente Kaûĩ moîese'ara significa "misturar cauins";
11 – Y nonga (corte com água) - 

















11 – Y nonga (corte com água) - 
O corte é feito para equilibrar a graduação alcoolica, que deve permanecer entre 11 a 16%, dependendo to tipo de Cauim que se deseja;
12 - Kamusi pupé kaûĩ moina (engarrafamento) - 















12 - Kamusi pupé kaûĩ moina (engarrafamento) -

literalmente Kamusi pupé kaûĩ moina significa "colocar o cauim no vaso".

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Catequese da floresta para salvar o mundo

Casulos habitacionais em uma samaumeira centenária - Amazônia High-Tech.
Temos que nos tornar cada vez mais YANOMAMI THËPË sermos cada vez menos NAPË. 
Nós somos tão educados na cultura européia, que achamos que esse é o único idioma cultural do mundo, mas as coisas começam a mudar e a cultura da floresta começa a se revêlar imprescindível para nossa sobrevivência no planeta.

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Recentemente Davi Kopenawa da etnia Ianomâmi, que tem sido chamado de ‘Dalai Lama da Floresta’, acompanhado por Fiona Watson, Diretora de Pesquisa da ONG Survival International, e especialista mundial em tribos isoladas. deram entrevistas para a imprensa americana e várias palestras em e ao redor de San Francisco, falando sobre o incansável trabalho para proteger a terra de sua tribo na Amazônia, e de como essa experiência pode se aplicar para o mundo.

Não é de hoje que a floresta amazônica tem sido reconhecida como um repositório de serviços ecológicos, não só para as tribos e as comunidades locais, mas também para o resto do mundo. É também a única floresta que nos sobra em termos de tamanho e a diversidade.

Sua continua queima e o aquecimento global se agravam, a saúde das florestas tropicais está intimamente relacionada à saúde do resto do mundo e o impacto do desmatamento na Amazônia continua a desfazer gradualmente os frágeis processos ecológicos que foram refinados ao longo de milhões de anos.

A solução para essa questão de como encontrar o equilíbrio necessário para a sobrevivência da floresta e conseqüentemente do planeta, não pode ser encontrado na ciência em si, mas sim na ciência aliada a questões filosóficas de povos locais, como os Ianomâmis.
Para os Ianomâmi o mundo é dividido em dois grupos de indivíduos, a dos YANOMAMI THËPË (seres humanos, gente) e a dos NAPË (nos, homens brancos, os inimigos os ‘ferozes’)

Os ianomâmis já foram tidos como um povo ‘feroz’ na sensacionalista e atrasada obra Yanomamö: The Fierce People (Yanomamö: O Povo Feroz), de antropólogo americano Napoleon Chagnon, que os descreve como “manhosos, agressivos, e intimidadores” e até hoje é tida como a bíblia do recém graduado de antropologia, levando o resto do mundo a idéias cada vez mais preconceituosas.

O bom é que isso vem mudando com o tempo, e passamos a ouvir cada vez mais a sabedoria do povo da floresta - do ponto de vista Ianomâmi o mundo é dividido em dois grupos de indivíduos, a dos YANOMAMI THËPË (seres humanos, gente) e a dos NAPË (nos, homens brancos, os inimigos os ‘ferozes’).

A floresta não se queima por si só e os rios não se auto-poluem, são os NAPË que o fazem.

A poluição de rios é reflexo de uma postura ativa dos NAPË, se deixarmos de jogar poluentes nos rios Tiete e Pinheiros no perímetro urbano, por exemplo, teríamos os rios limpos em questão de semanas. De fato, nós os NAPË somos proativos em poluir e devastar, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente.

Se perguntarmos a um índio Ianomâmi, o que ele acha do homem branco - NAPË, acabamos por ter vergonha de sua resposta.
Nadar na imensidão dos rios Amazonas e Tocantins me fez entrar em contato espiritual com a cultura YANOMAMI THËPË. O homem branco se considera único e diferente dos outros seres ao seu redor, - Os NAPË vivem sob o conceito de ‘silêncio dos espaços infinitos de Blaise Pascal’, estamos sozinhos, em um monologo. Os Ianomâmis não, eles são capazes de amar e dialogar com tudo e com todos ao seu redor.

De acordo com os índios Ianomâmis, o NAPË, não pensa em nada, não ama a terra, não ama a floresta, tem uma visão egoísta, inconseqüente e de curto prazo. Os conceitos dos Ianomâmis parecem ser muito mais elevados e muitas vezes de difícil concepção para nossa cultura, por isso resolvi classificá-los em grupos:

O conceito de ‘ser vivo’

O ‘ser vivo’ dos Ianomâmis é o que tratamos como ‘gente’, expresso como YANOMAMI THËPË.

O NAPË (homem branco) parece se importar apenas com ele mesmo e em nível secundário, com seus familiares diretos. Esse sentimento tende a diminuir com seus vizinhos e familiares distantes e são quase inexistentes para as outras pessoas do mundo, mas o lado positivo é que ele adota animais de estimação e isso parece ser um pequeno indicio de amor a outros ‘seres vivos’ que não pertença a classificação de Homo sapiens .
Os Ianomâmis são capazes de dialogar com tudo e com todos ao seu redor.

É muito comum ver índias amamentando seu bebe em um dos seios e um macaco, ou outro animal no outro, cena que causa incompreensão e repulsa ao homem branco que a presencia pela primeira vez. Para os índios esses animaizinhos também são ‘gente’ e tem direito ao leite materno, que não é da mulher mas sim da natureza.

Toy Art Yanomami


O homem branco se considera único e diferente dos outros seres ao seu redor, - Os NAPË vivem sob o conceito de ‘silêncio dos espaços infinitos de Blaise Paschoal’, estamos sozinhos, em um monologo. Os Ianomâmis não, eles são capazes de dialogar com tudo e com todos ao seu redor.

Para eles, quase tudo é ‘ser vivo’, ou ‘gente’ – o animal é gente, a planta é gente e até mesmo alguns artefatos também são tidos como gente, e essa ‘gente’ toda jamais deveria ser incomodada, e muito menos ofendida.
É muito comum ver índias amamentando seu bebe em um dos seios e um macaco, ou outro animal no outro, cena que causa incompreensão e repulsa ao homem branco que a presencia pela primeira vez. Para os índios esses animaizinhos também são ‘gente’ e tem direito ao leite materno, que não é da mulher mas sim da natureza.

Para os Ianomâmis, ninguém gosta de ser ofendido e cada vez que isso acontece, o ofendido se manifesta contra o ofensor.

Dessa forma, surgem algumas conseqüências e indagações, tais como:

- O que acontece se matamos um animal para comer? – matar um ser vivo é uma ofensa muito grave, mesmo que este tenha o titulo de YARO (animais de caça). isso não os impede de matar os YARO, mesmo conscientes de que sua morte terá conseqüências.

Eles pensam, “ao matarmos esses seres, aguarde pela reação que pode se manifestar de diversas formas, pode ser pequena indigestão, ou até mesmo na forma do ataque de outros animais do grupo, por exemplo de onças, parceiras do animal morto.

O conceito de ‘propriedade’ 

Nós não temos terra, a terra é que nos tem. A propriedade aos bens físicos é intangível posto que nossa matéria é perecível. Tais posses podem levar ao sofrimento (tal como no budismo).

- a Amazônia é importante pois dela vem o conhecimento que devemos ter para superarmos a crise civilizatória, de degradação do ambiente.

O conceito de ‘Evolução’

Os NAPË estão num estado de evolução inferior aos YANOMAMI THËPË  (os próprios ianomâmis), porem existem seres mais evoluídos, como os YAI, seres da floresta isentos de nome.

É nessa hora que o leitor fica indignado - como eles podem nos achar mais atrasados que eles?

Existem diversas formas de nos fazer ver o quão pouco evoluídos somos em comparação, por exemplo a questão do lixo.

Na natureza, o lixo de qualquer ser vivo se incorpora como utilidade para outro ser vivo (eg.  as fezes de mamíferos viram fertilizantes para plantas, o oxigênio expurgado pela arvore vira o ar que respiramos, etc.). Nós os NAPË, produzimos uma enorme quantidade de lixo que mais prejudica do que ajuda outros seres vivos.

A relação dos YAI com os YANOMAMI THËPË e com os NAPË é a mesma que nos, homens brancos, temos com as amebas.

O homem tem percepção de 4 dimensões, capacidade de raciocinar sobre os acontecimentos ao seu redor, lê livros, constrói pontes e observa as amebas no microscópio. As amebas por sua vez vivem num mundo muito mais limitado, tem diminuta capacidade de percepção que as possibilitam apenas comer formas vivas ao seu redor, não são capazes de ler nem, muito menos de construir pontes.

Os YAI nos observam como nós, homens observamos as amebas, sem que sequer nos demos conta. São infinitamente superiores e transitam por dimensões ainda inconcebíveis para nós.

O conceito de ‘URIHI’ - palavra Ianomâmi para floresta, ecossistema

A palavra yanomami UHIRI designa a floresta tudo que nela habita, com conexões e inter-relações infinitas, IPA URIHI, "minha terra", pode referir-se à região de nascimento ou à região de moradia atual do enunciador. URIHI pode ser, também, o nome do mundo: UHIRI A PREE, "a grande terra-floresta".
Nós os NAPË, somos a única espécie do planeta que produzimos lixo sem que esse entre em equilíbrio com o ecossistema.

A floresta amazônica é a maior região de floresta continua do planeta, corta nove países, corresponde a 60% do território brasileiro, quase 6 milhões de km2. O Rio Amazonas tem 6.800km de extensão, 105km a mais do que o Nilo de acordo com a medição de 2007, nele se encontra 20% da água doce do mundo.

Atualmente 18% da floresta já foi devastada, essa devastação aparece na forma de Pecuária extensiva e de baixa inteligência, propriedade ilegal, garimpo irregular.

Parece pouco mas 1% de área devastada, o mesmo índice de desmatamento em 1975, 60mil km2 é maior do que o estado do Rio de Janeiro ( aprox. 43.000km2).

O Brasil pode ser muito ruim no que diz respeito com o trato com os rios de suas capitais principalmente devido a corrupção e motivos eleitoreiros, mas trabalhos isolados na Amazônia chamam a atenção pela genialidade.

Não podemos colocar uma cúpula de proteção sobre a Amazônia

A proteção ambiental só pode acontecer se não se opor as enormes forças econômicas, portanto temos que atribuir valor para floresta em pé, e não desmatada.

Tudo que temos que fazer é usar a inteligência YANOMAMI THËPË para nos guiar. Mais dia, menos dia, as arvores muito velhas caem naturalmente como parte do processo de renovação, parte do ciclo natural da floresta. Se bem monitoradas, essas arvores podem ter suas quedas administradas por agrônomos legais e sua madeira pode ser utilizada com mais inteligência.

Um tronco de uma sumaumeira centenária vale pouco mais de R$10,00 no mercado negro, enquanto que um belo artesanato feito com pouco mais de 50 cm de comprimento da mesma arvore pode chegar a valer R$ 300,00.

Este é um bom exemplo de como transformar uma atitude NAPË em YANOMAMI THËPË
Ciencia aliada a filosofia Yanomami  -  A nossa única saída para salvar o planeta. Um veiculo de baixo impacto em destruição do solo corta uma samaumeira, num processo de renovação inteligente da selva Amazônica.

Creio que o grande fato gerador dos problemas da Amazônia atual foi o PIN, Programa de Integração Nacional, programa de cunho geopolítico criado pelo governo militar brasileiro através do Decreto-Lei Nº1106, de 16 de julho de 1970, assinado pelo Presidente Médici.

Preocupados em perder o vasto território amazônico pela dificuldade de monitorar suas fronteiras, o governo militar propôs realocar as vitimas da improdutividade das regiões de seca nordestina e transformá-los em mão de obra na prospera região amazônica, dessa forma ocupar os vazios demográficos amazônicos, "integrar para não entregar" e "terra sem homens para homens sem terras" foram as palavras de ordem da época.

O PIN teve o maravilhoso mérito de mobilizar o sentimento nacionalista, independentemente de visão política e promover a colonização da Amazônia.

A rodovia Transamazônica foi a ferramenta escolhida por Médici como via de acesso à floresta. Com 4 223 km de comprimento, ligando a cidade de Cabedelo, na Paraíba à Lábrea, no Amazonas, a estrada corta sete estados brasileiros: Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e Amazonas.
Num futuro próximo o sistema agro-florestal poderá ter a ajuda de drones coletores para promover agricultura de baixo impacto ambiental. No sistema agrícola de hoje nós desmatamos as florestas para depois plantar, com o propósito de limpar o terreno e assim, facilitar a entrada das nossas antiquadas maquinas agrícolas - com o advento dos drones coletores não precisaremos mais levar a cabo um processo tão pouco inteligente. 

Ao lado da estrada algumas rotas surgiram, e dessas outras ruas pequenas, ligando as fazendas, comunidades e casas - a chamada espinha de peixe, é a causa para a ocupação irregular e o consequente desmatamento.

O homem do nordeste, em sua grande maioria, junto com outros de outras regiões do Brasil e do mundo, que lá chegaram encontraram grande facilidade em ter cabeças de gado, posto que para se obter a posse da terra eles somente tinham que transformar 50% de suas terras em pastagem.
Um sistema de inteligencia artificial avalia as frutas e hortaliças por meio de sensores bem mais sofisticados que nossos olhos, braços robóticos colhem as frutas e as colocam numa cesta circular, a bordo de um drone coletor.

Hoje existem 60.000.000 cabeças de gado na Amazônia, uma relação de 3 bois para cada habitante da região.

Como mudar a filosofia NAPË em YANOMAMI THËPË?

Nós NAPË olhávamos a floresta como mato não como fazenda, se quisermos plantar algo ali, temos que desmatar para depois plantar, mas índios locais inspiraram um grupo de japoneses a criar os chamados SISTEMAS AGRO-FLORESTAIS.
Hajime Yamada chegou em Tomé-Açú no dia 22 de setembro de 1929, aprendeu com os indígenas a tecnologia do sistema agro-florestal, nós sempre olhamos a floresta como mato não como fazenda (foto: documentário Amazônia Eterna)

Um grupo de imigrantes japoneses chegou ao município de Tomé-Açu, no Pará, no fim da década de 1920 com proposta de plantar da pimenta-do-reino, Nos anos 70 com a queda dos preços e epidemias nos pimentais fez com que repensassem seu negocio.

Baseado em antigo conhecimento indígena, eles passaram a cultivar a pimenta-do-reino no mesmo espaço do cacau, bem como com o cupuaçu, mamão, açaí, coco, maracujá, castanha-do-pará, borracha natural e paricá. A praga dos pimentais foi combatida por predadores locais, trazidas pelas outras plantas, em equilíbrio com a natureza.

De lá para cá, o sistema foi aperfeiçoado na base da tentativa e do erro para a escolha das melhores combinações de espécies. Hoje, Tomé-Açu é referência nesse tipo de plantio e a cooperativa acumula diversos prêmios relacionados a empreendedorismo e sustentabilidade.

Além disso, a CAMTA promove e orienta a adoção dos sistemas agro-florestais para agricultura familiar em municípios vizinhos e realiza a comercialização dessa produção, um projeto que atende cerca de mil famílias da região.
Robos de extração de látex funcionam de forma autonoma, abastecidos com a luz do sol. As 'estradas de seringa' (os riscos feitos na casaca das seringueiras) são precisos, pois contam com sofisticados sensores que fazem cálculos precisos para melhor aproveitar a extração. 

A idéia básica desse sistema agro-florestal é realizar o plantio integrado de diferentes espécies vegetais, de tamanho variado, juntas em uma mesma área, formando diversos 'andares' – o processo recebe justamente o nome de agricultura em andares.

O sistema agro-florestal, conhecido dos povos indígenas já a muito tempo, oferece uma série de vantagens como:

- Como gera grande quantidade de matéria orgânica no solo proveniente de diversas culturas, há menos necessidade de adubos e agrotóxicos;

- Essa variedade de nutrientes gera alimentos mais saudáveis;

- A cobertura vegetal abundante também retém a umidade da terra, protege as plantações do Sol e proporciona um ambiente mais agradável para o trabalho no campo;

- O plantio de diversas culturas ao mesmo tempo permite a produção continuada e gera renda durante o ano todo.
Parte importante da filosofia YANOMAMI THËPË é que 'lixo não existe', não podemos jogar nada fora (fora de onde? do planeta?). Isso posto, todos os equipamentos são 100% reciclados para produção de novos equipamentos, substancias que não podem ser utilizadas em outros equipamentos são reintegradas na natureza por compostagem. Todas instalações tem imensas claraboias pois 80% dos equipamentos funcionam com energia solar.

Depois de tanto tempo catequizando nossos índios de acordo com heranças culturais européias, agora  chegou a hora de nos catequizarmos nos moldes do povo da floresta, quem sabe assim poderemos salvar nossas almas e nossas vidas.

sábado, 29 de agosto de 2015

CORTE O SALÁRIO DOS POLITICOS

Dicas de Policarpo Quaresma para quem ama o Brasil
Apesar de o Blog Ame o Brasil (<3 o [<o>]), ter assumidamente postura apolítica, achamos por bem refletir sobre o que podemos fazer para ver o pais em melhor situação.

Quem ama cuida – já que amamos o Brasil, devemos cuidar dele.

Isso posto, vamos a primeira dica de Policarpo Quaresma:

SE TIVER QUE CORTAR DESPESAS DO GOVERNO, A PRIORIDADE É CORTAR O SALÁRIO DOS POLÍTICOS

Essa é indiscutivelmente a primeira e mais valiosa de nossas idéias, se fizer uma analise fria verá que o problema dos altos ganhos de ocupantes de cargos públicos, gera praticamente todos os outros.

Alguém escolhe ser político por dois motivos:
1- Pelo amor ao país;
2- Pelos ganhos e conseqüente poder da função,

Se tirarmos o dinheiro da equação sobra só o AMOR AO BRASIL.

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O dinheiro pertence ao contribuinte, e também o nosso poder sobre ele. Devemos exigir uma total redução de gastos com os salários dos 3 poderes, salários mais baixos para o presidente da república, extinção de salários para deputados e vereadores, o não pagamento a assessores e transparência plena dessas informações.
Dica n° 03 - Na Suécia Deputados Federais vivem em apartamentos de 40m2, (alguns em cubículos de 18m2) com lavanderia comunitária, quem quiser lavar sua roupa tem que marcar hora numa lista e esperar sua vez. No recinto tem uma placa onde diz städa upp!! ( equivalente a - limpe tudo!!). Alem de faxineira eles não tem direito a secretária, assessor particular, carro com motorista e nem gabinete. O consenso geral é o seguinte: “políticos são eleitos para representar o cidadão comum, e o cidadão comum trabalha”.

Deve também existir leis restritivas para evitar o posterior aumento de seus salários por eles próprios, vindas de agencias reguladoras independentes e auditadas.

O pensamento é simples: Quando comecei a trabalhar, meu salário era R$ 800,00 e meu aluguel era de R$1.000,00 – se eu fosse um político eu poderia aumentar meu salário para R$ 3.000,00 porque assim sobraria uma grana para o final mês. Esse é o pensamento daqueles que arbitrariamente escolhem seu próprio salário.

De acordo com um estudo realizado pelo professor Emir Kamenica, juntamente com colegas da Universidade de Columbia, Universidade de Princeton, e DONG Energy, elevando os salários dos políticos é pouco provável que resulte em uma melhor governança. Na verdade, o que temos é o oposto.

Os pesquisadores consideram os efeitos de um aumento de salário em alguns membros do Parlamento Europeu (MPE). Em 2009, o Parlamento Europeu implementou um sistema de pagamentos de salário uniforme, e todos os deputados começaram a ganhar salários anuais no valor de € 90.000.
Dica n° 23 - Na Suécia, vereadores e Deputados Estaduais não recebem salário. Karin Hanqvist, Vereadora que mora em Blackeberg no subúrbio de Estocolmo, exerce suas funções como vereadora de casa, trabalha em uma creche pois a única coisa que recebe dos contribuintes é um computador e uma gratificação equivalente a R$ 280,00 por mês.

Eles descobriram que um aumento salarial levou a ter políticos com menos educação formal. Dobrar o salário de um deputado europeu fez cair em 15% o numero de deputados freqüentando uma faculdade com classificação entre as top 500 do mundo.

Talvez um aumento salarial poderia, pelo menos, inspirar os políticos a trabalharem mais? Infelizmente, o aumento fez pouco para melhorar empenho que políticos colocavam em seus afazeres. Os pesquisadores construíram uma variável para definir o índice de esquivamento (Shrinking) - anotando o histórico de votação de um membro, bem como quantas vezes ele ou ela assinou a lista de presença diária, sabendo dessa forma, quantas vezes deixaram de comparecer à uma sessão legislativa. A conclusão foi que o salário teve um impacto insignificante em ambos shirking e presença.

terça-feira, 30 de junho de 2015

BRASIL CIVILIZADO – MUNDO CIVILIZADO

Consciência Insular Noronhense para salvar o planeta
Depois de um passeio de barco, almocei num restaurante local e voltei para a pousada, ao chegar no quarto reparei que havido esquecido minha carteira. Se fosse em qualquer outra grande cidade do Brasil ou do mundo ficaria preocupado, mas em Fernando de Noronha é diferente. Meia hora depois uma garota tocou a campainha da pousada para me devolver a carteira INTACTA. Ainda perplexo com a inusitada honestidade, fiz expressão de espanto - “Aqui ninguém rouba não”, disse administrador da pousada enquanto fechava gentilmente a porta para a garota.

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Hoje temos plena consciência de que muitas atitudes da população humana tornaram-se patogênicas em relação a nossa sobrevivência e bem-estar ( patogênico - literalmente significa aquele que causa sofrimento” πάθος pathos “sofrimento, paixão” e -γενής – genēs “causador”), tanto no que diz respeito as relações interpessoais quanto ao cuidado com nosso próprio planeta. A população humana cresceu indiscriminadamente, estamos constantemente destruindo o ambiente no qual evoluímos, ocupamos e dominamos todos os principais ecossistemas, expulsando outras formas de vidas de lá. Em resumo, não somos mais um bando de primatas inconsequentes e errantes nos pastos da África Oriental como éramos a três milhões de anos atrás.
<3 o [<o>] - #AMEOBRASIL

É bem sabido que os ilhéus tendem a usar de forma consciente os escassos recursos, colaborarem mutuamente e estabelecerem uma relação de respeito e harmonia com a comunidade – caso contrario – eles mesmos põem sua própria sobrevivência em risco.

A esperança que vem dessa pequena ilha no litoral do Brasil. Reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial Natural, Fernando de Noronha, à 390km da costa brasileira, tem muito a ensinar sobre civilização ao Brasil e ao resto do mundo.

Essa condição de isolamento não só determina as peculiaridades quanto à fauna, à flora e aos ecossistemas, como também às pessoas que lá vivem.  Diferenciando-os de tudo que ocorre no continente, todo este processo e todas as inter-relações no Arquipélago estão sustentados por um frágil equilíbrio que, quando exposto a uma mais leve intervenção, pode ser quebrado. Agora começamos a entender que em escala global, o planeta Terra tem a mesma fragilidade de tal ilha, com a diferença que caso a terra se deteriore, ainda não temos outro lugar para onde fugir.

 “Esse cuidado todo é fácil de ser tomado pois trata-se de uma ilha, quero ver fazer isso no resto do Brasil”.
Golfinho-rotador (Stenella longirostris) seguindo nossa embarcação 

Antigamente eu saia por ai dizendo “não existe nenhuma cidade brasileira que não tenha esgoto a céu aberto, sem tratamento”. Felizmente esta ilha formidável me reservou uma outra boa surpresa.

O Noronhense é tão brasileiro quanto qualquer um de nós, ele só tem a chamada “consciência insular”, que paradoxalmente nos leva a melhor viver em comunidade, de forma a melhor gerir o frágil equilíbrio planetário.

A seguir, destaco algumas das iniciativas que advêm da consciência insular.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL
Projeto Navi - lente de 3m x 2m , que possibilita a visão submarina

O Noronhense aprende sobre ecologia desde pequeno, em casa e na escola, já o turista pode contar com o Projeto Navi, que tem o objetivo de fazer o "Turismo de Expedição Científica", unindo a diversão com informação. A hidronave é um barco com tecnologia militar russa, desenvolvida no período da Guerra Fria. O Navi foi fabricado na cidade de Yaroslav, e conta com uma lente de 3m x 2m , que possibilita a visão submarina. Já foram realizadas mais de 500 expedições, e na grande maioria, os turistas avistaram diversos peixes e até golfinhos.

Um instrutor certificado trabalha como guia da expedição, descrevendo cientificamente o ambiente submarino e explicando o delicado equilíbrio ecológico da região.

ENERGIA

Desde 1989 a Usina Termoelétrica Tubarão, administrada pela CELPE, fornece energia a partir de geradores a diesel (nada ecológico), mas recentemente a Universidade Federal de Pernambuco, em convênio com o governo da Dinamarca, iniciou a implantação de turbinas eólicas, reduzindo na sua primeira fase em 10% do consumo de 80.000 litros/mês de diesel.

Num outro impulso verde, foi inaugurada em 2012 a primeira usina solar fotovoltaica do arquipélago, situada no Comando da Aeronáutica, em um terreno de 5.000 m², a Usina Solar Noronha I tem potência instalada de 400 kWp (quilowatt-pico), o que resulta na geração estimada de 600 MWh/ano, cerca de 4% do consumo da ilha.

A previsão é de que até 2018 a ilha será abastecida 100% com energia solar e eólica.
Coral de Fogo - Millepora alcicornis avistado através da enorme lente do Navi

ICMBIO

O arquipélago de Fernando de Noronha é formado por 21 ilhas, ilhotas e rochedos. A maior delas virou território do Parque Nacional Fernando de Noronha, sob responsabilidade do ICMBio (O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) uma autarquia brasileira vinculada ao Ministério do Meio Ambiente e integrada ao Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama).

O IBAMA
Luiz Pagano na Hidronave - Fernando de Noronha

IBAMA (INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS) teve preocupação especial com os pescadores, dando atividades alternativas ou viabilizando a pesca não-predatória, de forma que eles não sentissem o impacto do projeto de preservação de forma drástica. Na realidade, uma vez que a preservação de certas áreas começa, o número de animais marinhos tende a subir, o que só beneficia a pesca de qualidade sem destruição ambiental. O pescador passou a ver a importância de preservar no seu próprio bolso.
Conforto e Educação Ambiental em Fernando de Noronha

TAXA DE PERMANÊNCIA

Um preço salgado para os moldes brasileiros, mas que é absolutamente necessária para a boa manutenção desse sistema de desenvolvimento sustentado. O número limitado de visitantes em Noronha também traz benefícios: fica mais fácil gerenciar problemas típicos humanos, como consumo de água e eletricidade, geração de lixo, e também permite um certo “isolamento” que dá ao turista em alguns recantos aquela sensação libertadora de ilha deserta.

MABUIAS E CAFUÇUS DO MUNDO

Todo aquele que pisa na ilha passa por um curioso processo de reeducação, semelhante a desintoxicação que um ex-fumante percebe nos dias decorrentes de sua decisão de largar o cigarro. Os benefícios aparecem evidentemente fortes no primeiro dia, são muito perceptíveis uma semana depois e para aqueles que tomam a decisão de se tornarem Mabuias ♀ e Cafuçus ♂ (apelido carinhoso pelo qual os ilhéus chamam as mulheres e os homens que decidem habitar na ilha) o período de dez anos é crucial, tanto do ponto de vista das adaptações mentais necessárias para se adequar as realidades da ilha, quanto para conseguir o direito legal de habita-la.

Embora seja impossível demonstrar a real importância dessa “consciência insular” sem jamais ter estado em Fernando de Noronha, eu os convido a serem um pouco mais Cafuçus e Mabuias, e a tratarem nosso mundo como uma ilha sem continente próximo, com frágeis conexões ecológicas, dignas de muito cuidado, carinho e respeito.
Mabuia – (Mabuya atlantica ou desde 2009 Trachylepis atlantica) carinhoso apelido dado pelos ilhéus às mulheres que não nasceram na ilha, é também o nome de uma espécie de lagarto endêmico de Fernando de Noronha


sábado, 6 de junho de 2015

Mudar o Brasil usando métodos extremos...

Voce pode mudar a forma de se conduzir nosso país, pintando as pessoas a seu próprio gosto
Se você pudesse escolher seu salário, ele seria bem alto - Não podemos deixar que os ocupantes de cargos públicos estabeleçam seus próprios ganhos - Mudanças devem começar por punições severas para as infrações sociais, em todos os níveis de importância de cargos.
Será que em 50 anos eu conseguiria aumentar o PIB per capita do Brasil de US $ 11.208 em  para mais de 110.000 dólares, reduzir a criminalidade ao nível de quase zero, melhorar enormemente a educação de nossa gente, dar condições realmente boas aos nosso velhinhos, acabar com a corrupção, acabar com os esgotos a céu aberto em todas a cidades, despoluir nossas águas, etc.

“Isso é impossível!! mudar o Brasil? - ninguém consegue fazer isso” você provavelmente pesou.

Lee Kuan Yew teve essa moral!

Mudar o Brasil é a idéia recorrente em grande parte das pessoas ao sair da infância, mas conforme crescemos, verificamos que isso, vai se tornando cada vez mais difícil.

Lee Kuan Yew foi uma das poucas pessoas que conseguiram realizar o sonho de nascer num pais, identificar seus problemas, mudá-los, e morar em sua própria utopia.

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Para conseguirmos uma mudança efetiva, é necessário que paremos de ser repetitivos, em tarefas sem sentido, re-avaliemos nossa estratégia e partamos para a ação.  

Métodos extremos

“Nós temos que fazer diferente! Ou então não vamos sobreviver”. Esse foi o apelo recorrente de Lee Kuan Yew para os habitantes de Cingapura durante os primeiros anos de sua independência.

Adepto da disciplina, Lee defendeu punições severas para as infrações sociais, inclusive com sanção física, teorizando sem inibição sobre a força pedagógica do exemplo para influenciar comportamentos coletivos., proibindo-os de cuspir no chão, fazer pouco barulho em suas próprias residências, combatendo fortemente a depredação de bens públicos e consequentemente, a criminalidade.

No ultimo dia 23 de março de 2015 perdemos o protagonista de uma das grandes histórias de sucesso econômicos do mundo, Cingapura deve muito de sua prosperidade, para um recorde de um governo honesto e pragmático, o legado de Lee Kuan Yew, que morreu aos 91. Ele se aposentou como primeiro-ministro em 1990, mas a sua influência política do governo da forma até o dia de sua morte, e continuará a fazê-lo além.

Em um discurso televisionado emocional, seu filho primeiro-ministro Lee Hsien Loong prestou homenagem a ele.

"Ele lutou pela nossa independência, construiu uma nação onde não havia nenhum, e fez-nos orgulhosos de ser cingapurianos. Nós não vamos ver um outro homem como ele."

Sr. Lee supervisionou a independência de Cingapura da Grã-Bretanha e da separação da Malásia. Sua morte foi anunciada no início na segunda-feira. Esteve hospital por várias semanas com pneumonia e vivia com ajuda de aparelhos.

Como LKY foi capaz de fazê-lo:

1) A maioria dos líderes (políticos) são demasiado egoístas e sedentos de poder (e até mesmo se eles não começam dessa maneira, o efeito vencedor tem uma tendência a deformar seus cérebros ao longo do tempo). Pode ter sido isso o que aconteceu com Napoleão;

2) Poucas pessoas têm a inteligência bruta e capacidade racional necessárias;

3) Quantas pessoas têm a força de caráter para desistir de suas vidas inteiras para a construção de uma corporação ou um país?

4) A maioria dos países são culturalmente e ideologicamente facilmente manipuladas pela opinião popular para aceitar a idéia de uma ditadura benevolente;

5) A maioria dos países (maiores) tem muitos interesses de diferentes tipos, e a corrupção já ocorre muito profundamente.

Adepto da disciplina, Lee defendeu punições severas para as infrações sociais

Algumas lições de sabedoria para aprender com LKY

# 1 A importância dos incentivos

Colocar os incentivos certos no lugar é o fator mais importante que determina o sucesso de longo prazo de uma organização, empresa ou um país. É papel da liderança para assumir que as pessoas irão burlar o sistema impiedosamente, e, portanto, torná-lo tão duro quanto humanamente possível para fazer isso.

Ao contrário de muitos outros países, como a Suécia, onde a maioria dos políticos são incompetentes - LKY, como Napoleão, César, e os Pais Fundadores, entendeu que o governo deve ser meritocrático.

# 2 A importância da prevenção: Seja implacável com os malfeitos

LKY, como outras muitas pessoas inteligentes, entendem a importância da prevenção.

o ato de fazer errado nunca deve ter que ser corrigido, eles devem ser impedidos.

A maioria dos malfeitos decorrem da incompetência ou psicologia negativa (maus hábitos e falta de disciplina), e como tal, eles têm uma forte tendência a se repetir, especialmente a nível nacional. É quase impossível de corrigir um problema, uma vez que tornou-se culturalmente enraizado.

O problema é que a maioria das pessoas não são capazes de pensar a longo prazo e lidar com a mudança incremental.

Em vez disso, eles cometem o erro de permitir que problemas cresçam como o câncer _, até que não possam mais ser interrompidos. Só então os meios de comunicação começam a elaboração de relatórios sobre ele - de uma forma não tão construtivo, perguntando: "Quem é o culpado !?"

Jogando o jogo da culpa é para crianças.

Os adultos pensam em termos de prevenção.

# 3 A importância da percepção pública

Não só LKY colocar nos incentivos financeiros adequados, atraindo assim os ministros mais competentes, mas também aumentou o respeito e status pelo qual os políticos e estadistas de Singapura são tratados.

LKY definir uma política estrita de não-aceitação contra sátira, piadas grosseiras, ou caricaturas de si mesmo e da liderança:
"Se você continuar zombando de seu líder, zombando dele, todos os dias, e ele não tem direito de resposta, é muito difícil para ele comandar o seu respeito".

# 4 Os seres humanos não são iguais e nem nunca serão!

Só uma pessoa com um caráter forte pode falar a verdade, especialmente quando sua posição na vida depende disso. Felizmente, LKY era tal um indivíduo, e ele se atreveu a repartir 'verdades duras':

O ser humano é uma criatura desigual. Isso é fato.

Todas as grandes religiões, todos os grandes movimentos, todas as grandes ideologias políticas começam dizendo 'vamos fazer o ser humano tão iguais quanto possível ». Na verdade, ele não é igual, nunca será.

Fiel à sua palavra, em uma entrevista em 2013 no 120º aniversário da Shell, LKY foi perguntado "Qual é o sentido da vida?", E respondeu o seguinte:

A vida é o que você faz dela. Você é fruto de  uma aleatória mão de cartas, seu DNA foi determinado por sua mãe e seu pai. . . Seu trabalho é fazer o melhor com as cartas que lhe foram dadas.

O que você pode fazer bem feito? O que você não Pode fazer bem feito? No que você é o pior ?

Se você me pede para ganhar minha vida como um artista, eu vou morrer de fome. Porque eu não sei desenhar. Não estava em meu pai ou em minha mãe ou nos meus avós e bisavós.

Mas se você me pedir para fazer questões matemáticas, ou para discutir e apontar, eu vou sobreviver. Essas são as cartas que me foram  dadas, e eu vou usá-las.

Não tente fazer algo que você não foi favorecido pela natureza para fazer.

Países como a Suécia (onde a noção de "igualdade" tornou-se uma espécie de religião estranha para pessoas burras) faria bem para eles aprenderem isso.

Jogue a sua mão com suas melhores habilidades.

# 5 Não confie ou siga a mídia de massa, a cultura popular, e defina o seu próprio curso

Eu nunca fui muito preocupado ou obcecado com pesquisas de opinião ou pesquisas de popularidade. Eu acho que um líder que é, é um líder fraco.

Em muitos países, como os EUA, as eleições são baseadas em polling e mídia popular. Isso é chamado de populismo. Política tornou-se semelhante à _ entretenimento de TV e reality shows. LKY não teria isso, e (com razão) bateu o pé.

Além disso, pesquisas de opinião e focus groups não são de confiança. As pessoas mentem ou responder sob a pretensão de correção política.

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Será que deveríamos criar o partido de LKY, o “Partido de Ação Popular” (PAP, em inglês: People's Action Party; chinês simplificado 人民行动党 pinyin: Rénmín Xíngdòngdǎng) aqui no Brasil? Será que teríamos sucesso em ter a ideologia e os métodos em pleno uso por aqui?

As forças da natureza mostram o Caos como o antagonista do Cosmos, da mesma forma que as ondas são precedidas por ressacas, que a esquerda intercala poder com a direita. Dessa forma, depois da desordem deveremos seguramente ter a tão sonhada ordem – só não sabemos como ela deverá chegar.


terça-feira, 21 de abril de 2015

Projeto TEMBI-U

O Projeto Tembi-u trouxe de volta as chamadas ‘festas de exploradores’, que eram feitas pelas famílias paulistanas no final do século XVI.
O movimento T-Pop (Tupi Pop) e o blog ‘Ame o Brasil’ resgatam mais um pouco da historia paulistana e trazem para os dias atuais, os rituais brasílicos antigos - no mais recente deles, o Projeto Tembi-u, Luiz Pagano (criador desse blog) trouxe de volta as chamadas ‘festas de exploradores’, que eram feitas pelas famílias paulistanas no final do século XVI.

Assista ao video do evento 'Projeto Tembi-u'

Quase quinhentos anos depois, Pagano e sua equipe, trazem para o planalto paulistano os elementos da alta gastronomia da Belém amazônica, para uma festa, onde mostra aos integrantes do já bastante evoluído mundo da coquetelaria.
 
João Ramalho e Bartira experimentando frutos de regiões mais afastadas da planície Paulistana
A inspiração para fazer o Projeto Tembi-u veio de pesquisas feitas sobre a historia da Vila de São Paulo de Piratininga do final do século XVI, mais exatamente na área que corresponde ao alto de uma colina escarpada, entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, próximo ao colégio (hoje Pátio do Colégio), que funcionava num barracão feito de taipa de pilão, que tinha, por finalidade, a catequese dos índios da etnia Guianas que viviam na região.

Nessa região, aproximadamente no ano de 1580, encontrávamos a residência da família de João Ramalho e Bartira, bem como a de diversas outras famílias de portugueses que acabaram por se casarem com índios. Algumas dessas famílias aderiram a catequese dos padres jesuítas, no entanto outras continuavam seguindo as tradições dos índios. Foi exatamente dessas famílias que trouxemos a tradição das ‘festas de exploradores’.

Apesar de protegida por relevos naturais, essa região não tinha muitas riquezas naturais, os habitantes locais viviam de uma modesta policultura de subsistência, baseada no milho, no qual a canjica, fubá e o angu, eram seus pratos principais. Ocasionalmente o rio Tamanduaí  oferecia grande quantidade de peixes, que eram pescados e colocados a secar (Piratininga significa em tupi – peixe a secar).

A única forma desses habitantes terem acesso a frutas, pesca e caça diferentes, era se aventurando a leste, para além da serra do mar, a também chamada de "Serra de Paranapiacaba" e enfrentar os terríveis Tupinambás do litoral, ou irem para o oeste, em direção ao interior de São Paulo, cuja a passagem menos íngreme do sistema de serras era indicada pelo Pico do Jaraguá (Jaraguá em tupi significa o guardião do vale).
 
Habitantes da Vila de São Paulo de Piratininga tinham que passar pelo Pico do Jaraguá (guardiões do vale em Tupi Antigo) para chegar ao interior
Alem de anunciar as riquezas naturais para os habitantes do planalto Paulistano, o Pico do Jaraguá chegou até mesmo a oferecer ouro. Décadas após a chegada de Luís Martins, o mameluco Afonso Sardinha descobriu ouro no Jaraguá, dando início à chamada febre do ouro paulista.

Mais tarde, quando se falava em bandeirantes, os paulistanos eram os mais mencionados. Isto porque foram os mamelucos de São Vicente, Santo André e São Paulo dos Campos de Piratininga, os que mais se dedicaram ao sertanismo, se comparados às bandeiras baianas, pernambucanas, maranhenses e amazônicas.

Até meados do século XVIII, as ‘festas de exploradores’ eram feitas para celebrar diversos acontecimentos entre povos indígenas, tais como o Pitanga areme (nascer de uma criança), maran-iré (a vitoria numa guerra), ou o rembé mombuká (furar de lábios de jovens índios para a colocação do botoque). As celebrações mais importantes dos Perós (Portugueses) eram as conquistas feitas nas bandeiras, e posteriormente mostrá-las aos moradores da planície.

Provavelmente essas festas foram extintas no mesmo momento em que houve a proibição da língua indígena pelo Marquês de Pombal em 1758.

Quanto ao nome do projeto

Não sabemos ao certo que nome era dado a essas ‘festas de expedição’, no entanto escolhemos ‘Tembi-u’ pois segundo o Professor Emerson Costa, teria o significado de "Gastronomia" em idioma neológico Guarani, traduzido como "tembi'uapokuaa" que literalmente significa "saber (ou ciência de) fazer comida".

Em tupi dá para forjar com elementos cognatos "mbi'uapokuaba". O nome, que designa o objeto da ação em relação ao agente, forma-se dos temas transitivos, com o prefixo emi- (embi-).

Os temas destes nomes pertencem à classe II, podendo sua forma absoluta ser formada pela perda de e- inicial ou pela prefixação de t-. Exs.:
t. ú I tr. “comer”, n. obj. embi-ú:

Ainda para a escolha do nome, não quisemos usar o termo pepyra (m-) - festa ritual de comer e beber; banquete um antropofágico – pois não tinha o canibalismo em mente para essa festa de bons sabores, alem do que, isso poderia ser mal entendido por religiosos e pela imprensa.

Discernindo sobre o canibalismo, fiquei muito feliz de o evento ter sido comparado com a ‘semana de arte moderna de 1922 da coquetelaria’, em seu aspecto antropofágico de deglutir as técnicas mundiais, para em nossa digestão, termos uma mixologia 100% brasileira. É importante que se diga que não tive a intenção de romper com valores europeus, posto que a festa foi patrocinada pela multinacional francesa de bebidas Pernod Ricard em sua ativação ‘Clube do Barman’ e nem a pretensão de promover um evento com o cunho artístico do de Mario de Andrade e Tarsila do Amaral.

A festa do dia 06 de Abril de 2015

Para promover a festa do Projeto Tembi-u com aproximadamente 50 convidados, a exemplo das ‘festas de expedições’ antigas, Luiz Pagano, o idealizador do projeto e a equipe de mixologistas da Pernod Ricard, James Guimarães - co-idealizdor, Alan Souza de Fortaleza e Rafael Mariachi de São Paulo fizeram uma expedição a Amazônia Paraense para coletar dados e elementos locais.
 
Na expedição na região amazônica, Luiz Pagano e sua equipe de mixologistas tiveram os irmãos Tiago e Felipe Castanho como guia para conhecer não só as frutas e ervas da região, mas a riqueza de seu povo e sua sustentabilidade

Na festa que aconteceu no ultimo dia 6 no Centro Cultural Rio Branco, que promete ser a primeira de uma serie de muitas, tivemos os deliciosos e sofisticados quitutes da chefe Regina Pellegrino e contou com a presença dos Irmãos Thiago e Felipe Castanho, importantes chefes de cozinha, que lideram pesquisas locais no que diz respeito a floresta amazônica, mentores de conceituados chefes de cozinha como Alex Atala e Ferran Adriá, Os irmãos Castanho também são proprietários dos restaurantes Remanso do Peixe e Remanso do Bosque em Belém.

Convocamos um debate entre os integrantes do time, os irmãos e os convidados, com o intuito de relevar o importante papel que temos, de mostrar os elementos brasileiros de excelência, bem como do manejo sustentável de ingredientes e a valorização do nosso povo.

Durante o debate, foram apresentados os drinks criados pelos mixologistas, e no final da palestra, uma mesa com quase uma centena de frutas e ervas trazidas da região amazônica, oferecia aos barmans ingredientes únicos para criarem seus próprios drinks e manifestarem seu aprendizado.
 
O evento chegou a ser comparado com a semana de arte moderna de 1922 para a gastronomia e coquetelaria - T'ereîkokatu! (Saúde!, que te sucedam bem os acontecimentos – em Tupi antigo)
Cada vez que surgia um brinde no evento, usávamos o termo T'ereîkokatu! (Saúde!, que te sucedam bem os acontecimentos – em Tupi antigo).



Outras referencias

Pouco mais quanto ao povo que habitou a São Paulo de 1582

Theodoro Sampaio conta um pouco sobre o cotidiano de nosso povo naquele tempo:

"E' facto que, quanto á nacionalidade do gentio de Piratininga, nenhum dos antigos historiadores ou chronistas é assas explicito, mas dizem o bastante para se fixar o habitat da nação Guayanã.
...
Vê-se, portanto, do testemunho dos viajantes, historiadores e até dos archivos das camarás municipaes da Capitania de S. Vicente que nada menos de cinco nações gentias a habitaram no primeiro século do descobrimento: Guayanãs, Tupis, Tupinaês, Tupininquis, Maramomis, não fallando já dos Tamoyos do valle superior do Parahyba. Destas nações, a dos Guayanãs, certamente, occupava o littoral visinho de S. Vicente, como dominava nos campos de Piratininga que o chronista Vasconcellos chamou Campos Eliseos da gentilidade.
...
Azevedo Marques diz ter encontrado no Cartório da Provedoria da Fazenda de S. Paulo, o titulo de uma sesmaria de três léguas na paragem chamada Carapicuhyba, concedida por Jeronymo Leitão aos Índios Guayanãs, oriundos de Piratininga. O mesmo autor, apoiando-se em Pedro Taques, dá-nos a cidade de Taiibaté como tendo sido em sua origem uma aldêa de Índios Guayanãs, emigrados de Piratininga.
...
Mas essa diíferença da lingua Guayanã para o tupi ou para o guarany não ia além da dialectal como, a propósito, opina o Visconde de Porto Seguro. O mesmo Gabriel Soares assim o dá a entender quando nos diz: «... a lingua deste gentio é différente da de seus visinhos, mas entende-se com os Carijós. Reconhece-se, portanto, que a differença lingüística entre os Carijós e os Tupis que lhes ficavam ao norte, pela costa, não era senão a dialectal, a mesma que se nota entre o Guarani/, falado nas margens do Paraguay e a lingua geral, dos primitivos habitadores do littoral brazilico.
...
escrevia Anchieta, é evidentemente tupi e deve ter sido empregado pelos desta língua para designar um povo pacifico, ou pouco belicoso como, de facto, o era aquelle que habitava os campos de Piratininga, gente mouar, fácil de crer em tudo, não tomando iniciativa nos ataques aos seus contrários, não matando os seus prisioneiros.

Guayanã no guarany como no tupi significa ao pé da lettra verdadeiramente manso^ bonachão, derivado de guaya (manso, brando, pacifico), e nã (na verdade, certamente). Vê-se que não é um nome propriamente de nação, mas um appellido, ou designação baseada em seu caracter e génio, dada pelos seus visinhos.

E Anchieta em 1585 dizia a seu Geral que São Paulo “terra de grandes campos era fertilíssima de muitos gados, de bois, porcos e cavalos”.

Segundo Gabriel Soares os porcos paulistanos eram, em 1587, abundantíssimos e notáveis pelo tamanho, “animais de carnes muito gordas e saborosas, fazendo vantagens às das outras capitanias por provirem de terra mais fria”.

Manadas de cavalos viviam errabundas pelos campos.

À noite, soltos pelas ruas da vila, transitavam bovinos e eqüinos.

Em 1598 o procurador Pedro Nunes denunciava que tais animais “faziam muitas perdas às casas e benfeitorias e se caíam muitas paredes”.
...

S. Paulo, 24 de Fevereiro de 1897."
 
Que as festas de expedições - Tembi-u - sejam cada vez mais realizadas em solo brasileiro 
Outras notas quanto a gramática Tupi Antiga

1as. xe-r-embi-ú “o que eu como”,
abs. mbi-ú ou t-embi-ú “o que a gente come”; t. moñáng I tr. “fazer”, n. obj. emi-moñáng:

3a c. s-emi-moñang- -a “o que ele faz, a obra dele”, abs. mi-moñáng-a ou t-emi-moñáng-a “o que a gente faz, obra de gente”; t. suú I tr. “mastigar”, n. obj emi-nduú (cf. 0.3.a):

1as. xe-r-emi-nduú “o que eu mastigo, coisa mastigada por mim”, abs. mi-nduú ou t-emi-nduú “coisa mastigada por gente”; t. kaú I tr. “fazer mingau”, n. obj. emi-ngaú (0.3.a): abs. mi-ngaú “mingau”.

7.4.2. Os tempos dos nomes de objeto formam-se regularmente:
pres. xe- r-emi-ú “o que eu como, minha comida”,
fut. xe-r-emi-ú-r-ám-a “o que eu comerei, o que será minha comida”,
pret. xe-r-emi-ú-p-ûér-a, “o que eu comi,

Aryon Dall’Igna Rodrigues
Volume 3, Número 1, Julho de 2011 81
Morfologia do verbo Tupí

o que foi minha comida”, pret. irreal, xe-r-emi-ú-r-á-mb-ûér-a “o que eu devia ter comido, mas não comi”.