segunda-feira, 28 de abril de 2014

Botoques e Piercings

Revista mensal de moda TUPI POP traz materia especial sobre as ultimas tendências em botoques coloridos, feitos de plexiglass.
Assim que os Portugueses chegaram no Brasil encontraram alguns grupos indígenas que se destacavam pelo uso de grandes discos de madeira nos lábios e nas orelhas, e passaram a ser chamados de Aymorés ou Botocudos (índios que usam o Botoque).

Botoques ou discos labiais, são ornamentos feitos da madeira extraída da árvore "Barriguda" (Bombax ventriculosa). Esses discos são perfeitamente lixados, a madeira é desidratada no fogo ficando leve e esbranquiçada. É comum que o botoque seja pintado com riscos geométricos. Somente os homens esculpiam os botoques, mesmo aqueles usados pelas mulheres. As orelhas das crianças eram furadas aos sete anos de idade, mais ou menos e os lábios um pouco mais tarde. Os botoques implantados inicialmente eram pequenos e aumentavam de tamanho gradativamente.

Os Botocudos não constituíam um grupo indígena único, eram índios de diferentes etnias com algumas características em comum: como o uso dos botoques e o semi-nomadismo. Sobre o genérico nome "botocudo" eram conhecidos os índios das etnias Pojixá, Jiporok, Naknenuk, Nakrehé, Etwet, Krenak, entre outras.
 
Índios Botocudos por Johann Moritz Rugendas, 1822 a 1825
Em 13 de maio de 1808, o príncipe regente dom João assinou uma carta régia mandando “fazer guerra aos índios botocudos”. Os portugueses venceram a guerra, usando pólvora e aço e armas biológicas - roupas e cobertores impregnados de vírus de varíola eram deixados na floresta para uso e contaminação dos índios.Os índios que sobreviviam foram escravizados.

Atualmente todas as populações Aymoré ou dos Botocudos foram dizimadas, exceto seus descendentes Krenak. Os Krenak vivem atualmente no Estado de Minas Gerais e contam 99 indivíduos.
 
os homens mais velhos usam os tradicionais botoques de ‘Árvore Barriguda’ envernizada.
Imaginem agora que a tal carta regia nunca tivesse existido, e os índios Botocudos tivessem feito sobreviver sua cultura, com o uso de seus botoques e piercings até os dias de hoje.

A cultura ‘Tupi Pop’, também chamada de ‘Nova Tupi’, criada neste blog em 2012 http://ameobrasil.blogspot.com.br/2012/12/como-seria-o-brasil-se-cultura-dos.html celebra o uso de Botoques e Piercings. Jovens desfilam nas ruas com seus lindos botoques coloridos, enquanto que, os homens mais velhos usam os tradicionais botoques de ‘Árvore Barriguda’ envernizada.
 

O "piercing janela" é um disco de plexiglas embutido no lábio inferior e na bochecha para que se possa ver o interior da boca e a linha da gengiva - http://ameobrasil.blogspot.com.br/2012/12/como-seria-o-brasil-se-cultura-dos.html
Revistas de moda, como a TUPI POP, lançam as ultimas novidades em botoques feitos de plexiglass transparente, ou com estampas criativas.


Quem sabe podemos enaltecer o orgulho de sermos brasileiros, talvez nos próximos anos a moda urbana inclua as pinturas nos rostos de nossos jovens, ou mesmo pinturas corporais tal como as mostradas no Spa Pihin (Spa Pihin – foi uma outra idéia de valorização da cultura indígenaatravés da criação de um Spa que faz uso de técnicas de cuidado e carinho com ocorpo através da s pinturas com e ervas especiais – Pihin, palavra do Tupiantigo que significa ‘Pintura Corporal) tal como ainda se faz em reservas isoladas, ou tribos ainda existentes.

domingo, 13 de abril de 2014

Sateré Mawé – Inventores do Guaraná e do ritual das Tocandiras

India da etnia Sateré Mauwé fazendo o ritual da Tocandira, alegoria do guaraná 

Em novmeb4o de 2013, Atwãma, uma menina da etnia Sateré-Mawé de apenas de 15 anos de idade, participou do Ritual da Tocandira, a aceitação de mulheres no ritual tem sido comum nos últimos três anos na aldeia Sahu-Apé. É que o ritual, embora tradicionalmente masculino, se expandiu para outros gêneros e até pessoas que não é indígena pode participar.
Os rituais de passagem da puberdade são acontecimentos marcados com rituais de extremo valor na comunidade. Os homens são submetidos à prova das formigas tocandira ou tucandeira - são instigados a colocar a mão em uma luva de palha trançada infestada de formigas tucandeira, e aguentá-las durante pelo menos 15 minutos, enquanto todos os índios dançam ao redor em uma música em língua local.4 Em seguida, a luva é repassada ao índio do lado (que também deve aguentar os 15 minutos), e assim por diante, até passar por todos os adolescentes que estão a ingressar em vida adulta. Durante o ritual os adolecentes ficam com suas mãos inchadas seguidos de vários efeitos consecutivos, como febre, câimbra, vermelhidão nos olhos, etc.

Sateré - quer dizer "lagarta de fogo", referência ao clã mais importante dentre os que compõem esta sociedade, aquele que indica tradicionalmente a linha sucessória dos chefes políticos. O segundo nome - Mawé - quer dizer "papagaio inteligente e curioso".
 
Toy art de indigena com pintura dos Sateré Mawé - Ritual da Tocandira
A língua Sateré-Mawé integra o tronco lingüístico Tupi. Segundo o etnógrafo Curt Nimuendaju (1948), ela difere do Guarani-Tupinambá. Os pronomes concordam perfeitamente com a língua Curuaya-Munduruku, e a gramática, ao que tudo indica, é tupi. O vocabulário mawé contém elementos completamente estranhos ao Tupi, mas não pode ser relacionado a nenhuma outra família lingüística. Desde o século XVIII, seu repertório incorporou numerosas palavras da língua geral.

Os homens atualmente são bilíngües, falando o Sateré-Mawé e o português, mas a maioria das mulheres, apesar de três séculos de contato com os brancos, só fala a língua Sateré-Mawé.

Os Sateré-Mawé domesticaram guaraná,  criaram o processo de beneficiamento da planta. A primeira descrição do guaraná e do processo para exgrair seu sumo data de 1669, ano do primeiro contato o homem branco.

O padre João Felipe Betendorf descreve, em seu relato de 1669 - "tem os Andirazes em seus matos uma frutinha que chamam guaraná, a qual secam e depois pisam, fazendo dela umas bolas, que estimam como os brancos o seu ouro, e desfeitas com uma pedrinha, com que as vão roçando, e em uma cuia de água bebida, dá tão grandes forças, que indo os índios à caça, um dia até o outro não têm fome, além do que faz urinar, tira febres e dores de cabeça e cãibras".

O antropólogo Anthony Henman descreve o uso da bebida no ritual das Tocandiras: "Essas práticas são essencialmente as mesmas em todas as circunstâncias, tanto se o çapó for preparado para o círculo familiar mais íntimo, ou para um encontro de todos os homens adultos durante uma festa ou reunião política. Cabe à mulher do anfitrião ralar o guaraná, operação feita com uma língua de pirarucu ou uma pedra lisa e quadrada de basalto. Uma cuia aberta da espécie Crescentia cujete é colocada em cima de um suporte chamado patauí e enchida de água até um quarto do seu volume total. A ação de 'ralar' o guaraná molhado não busca a transformação do bastão em pó, como ocorre com o guaraná seco.

Antes, trabalha-se o guaraná para que se forme uma baba, uma viscosidade que adere ao ralo e ao pedaço do bastão em uso, sendo dissolvida n'água mediante a periódica submersão dos dedos da raladora.

Depois de preparado, o çapó é de novo diluído com água guardada ao lado da "dona" do guaraná em uma cabaça da espécie Lagenaria siceraria. A cuia, já a essas alturas cheia até um pouco mais da metade de çapó, e entregue pela mulher ao seu marido, que toma apenas um pequeno gole antes de passá-la aos outros presente, normalmente prestigiando os mais velhos ou alguns visitantes importantes, se os houver. Daí em diante, a cuia passa de mão em mão observando a proximidade física dos participantes, e não um rígido esquema de hierarquia, sendo acompanhado durante as sessões noturnas por um grande cigarro de tabaco enrolado numa casca de árvore. O nome tauarí indica tanto o cigarro feito, como a casca e a própria árvore (Couratari tauary).

Nem sempre a cuia e o tauarí fazem uma volta circular, sendo mais comum que passem em uma linha reta de um participante ao próximo, voltando pela mesma linha até chegar de novo nas mãos do dono. Quando são muitas as pessoas presentes, observa-se a formação de duas ou mais linhas deste tipo, já que uma só cuia raramente é tomada por mais de oito ou dez pessoas. O participante que não tiver muita vontade de tomar guaraná não irá rechaçar a oferta da cuia, mas manterá as formalidades, bebendo um golinho mínimo para não ofender o anfitrião. Outro detalhe importante é que ninguém acaba a bebida que tiver na cuia, e mesmo se receber uma quantidade mínima, cuidará de deixar sempre um resquício para devolver ao dono. Só este é que tem o direito de encerrar formalmente a sessão de çapó; o que ele pode fazer pessoalmente, ou passando o restinho para um membro de sua família, acompanhado pela frase wai'pó ("olha o rabo").

Durante o intervalo em que a cuia circula entre as pessoas presentes, a mulher do anfitrião continuará esfregando o pedaço de guaraná contra o ralo, juntando uma baba que será prontamente dissolvida na água assim que a cuia voltar às suas mãos. Cabe observar que cada sessão da çapó tem várias rodadas da bebida, ou seja, a mulher do dono da casa (ou sua filha, ou sua neta) irá preparar várias cuias de çapó conforme a disposição dos visitantes e familiares para tomar çapó e conversar.
O çapó é a bebida que os Sateré-Mawé utilizam durante seus resguardos. As mulheres durante a menstruação, gravidez, pós-parto e luto e os homens na Festa da Tocandeira, no luto e quando acompanham suas mulheres durante o resguardo do pós-parto.

Pode-se dizer que é durante o fábrico, termo regional também utilizado pelos Sateré-Mawé para indicar as várias etapas do beneficiamento do guaraná, que a vida social se intensifica. A partir do que observamos, o fábrico potencializa ao máximo a maneira de ser desta sociedade, trazendo para a vida social cotidiana toda uma gama de fenômenos que se encontram ocultos ou obscuros em outras épocas do ano. É um período que se renova a cada ano com a chegada da colheita do guaraná, permitindo aos Sateré-Mawé comungarem com sua gênese mítica, revigorando-se etnicamente.
Formiga Tocandira 


O ritual da Tocandira coincide com a época do fábrico e dura aproximadamente 20 dias. Os índios referem-se a este ritual como "meter a mão na luva", também conhecido pelos regionais como "Festa da Tocandira". Trata-se de um rito de passagem - onde os meninos tornam-se homens - de extraordinária importância para os Sateré-Mawé, com cantos de exaltação lírica para o trabalho e o amor, e cantos épicos ligados às guerras. As luvas utilizadas durante este ritual são tecidas em palha pintada com jenipapo, e adornadas com penas de arara e gavião; nelas, o iniciado enfia a mão para ser ferroado por dezenas de formigas Tocandiras (Paraponera clavata).