sábado, 7 de setembro de 2013

Spa Pihin ou Spa Nova Tupi uma nova abordagem no tratamento do corpo e do espírito


Os Spas Pihin oferecem a terapia ‘a terapia completa’ que  promove o melhoramento do indivíduo em todos seus aspectos; físico, estético, mental, espiritual e psicológico.

Em 2006 a top Gisele Bündchen Gisele passou dois dias na aldeia dos Kisêdjê, no Parque Indígena do Xingu - nordeste de Mato Grosso e entregou-se de corpo e alma aos costumes da tribo.

Após ser recebida pelo cacique Kuiussy Suyá e pelas integrantes da aldeia, Gisele foi transformada em uma nativa com a cuidadosa aplicação das pinturas corporais. Para a top mais majestosa do planeta, as índias fizeram grafismos tradicionais, destinados às mulheres que se destacam na comunidade por sua beleza. .

Até então nunca tinha visto uma integração genuinamente brasileira tão prospera e a idéia de um Spa Pihin me pareceu, e ainda me parece o melhor investimento brasileiro em turismo.

Em sua concepção original os Spas ‘Nova Tupi’ tem como atração principal a terapia do ‘Pihin’, também chamada de ‘terapia da pintura corporal’.
 
Pinhin – palavra do Tupi antigo que significa ‘Pintura Corporal -  “Koxapyrywa opihim oroxe'ynia xanypawa po”. Em idoma Parakanã – “A Koxapyrywa pinta nossos parentes com jenipapo”.

A técnica de Pihin busca trazer a civilização urbana o equilíbrio supremo através do conhecimento milenar da arte da pintura corporal indígena. Também conhecida como ‘a terapia completa’, a tecnica Pihin promove o melhoramento do indivíduo em todos seus aspectos; físico, estético, mental, espiritual e psicológico.

Quando o cliente se submete ao tratamento Pihin, este passa por um breve ritual em uma arejada sala onde são oferecidos pratos típicos que favorecem  uma rica e balanceada alimentação a base de frutas como o Açaí (Euterpe oleracea), o Cupuaçu (Theobroma grandiflorum), o Bacuri (Platonia insignis), a Bacaba (Oenocarpus bacaba), a Pupunha (Bactris gasipaes), etc..

A seguir o cliente deita-se em uma cama recheada de fibras aromáticas e recebe o carinho de uma Pihin-sara (pintora de corpo) ou de mais Pihin-sar-ama (Pintoras de corpos), que durante horas se dedicam concentradamente ao seu oficio, aplicando o leve toque de seus dedos e do pincel feito de palha de babaçu chamado “Jufuiva” no corpo.

Misturas terapêuticas de uso tópico são misturadas ao jenipapo para uso especifico de acordo com a necessidade do cliente:

- A Coca (Erythroxylum coca), o Ipadu, a Marapuama (Ptychopetalum olacoides), o Guaraná (Paullinia cupana) e outras substancias psicoativas para tratamento de depressão;

- A Castanha-do-pará (Bertholletia excelsa) e preparados com a casca preciosa (Aniba canelilla) como calmante;

- Antiinflamatórios e antibióticos como Paratudo, o Ginseng-brasileiro - Pffafia glomerata), Andiroba (Carapa guianensis), Unha-de-gato (Uncaria tomentosa); Carapanaúba (Aspidosperma nitidum); Pau d'arco (Tabebuia avellanedae) entre outras;

No final do tratamento a cliente leva uma linda e exclusiva obra de arte em seu corpo, que em certos casos permanecem no corpo por até uma semana. A técnica para esta semi tatuagem consiste em ralar o fruto verde do jenipapo na raiz da palmeira-paxiubinha e a seguir espremer-se o sumo adicionando carvão vegetal. O carvão faz com que o desenho fique visível durante a execução da pintura. Após o banho, o desenho desaparece momentaneamente com a eliminação do carvão, mas ressurge apos alguns minutos devido ao efeito do sumo do jenipapo na pele humana, permanecendo por cinco dias ou mais.

Os povos indígenas brasileiros tem usado seus próprios corpos como ‘suportes dinâmicos’ os chamados ‘corpus gráficos’ pelo estudioso Terence Turner (1969) desde a pré-história, a obra de arte, tal qual concebemos em nossa sociedade, não existe na sociedade indígena, pois não há separação entre objeto de uso e objeto “contemplativo”.

Após milhares de anos cada tribo criou e desenvolveu sua própria especialização, entre os índios Kayapo o papel da ornamentação corporal é tão intenso que os indos se referem este como a “pele-social”.

Para infelicidade do grande publico, os Kadiwéu não permitem a entrada de um Spa Pihin em suas terras, pois a arte revela seu perfil senhorial. Os maravilhosos motivos curvilíneos Kandiwéus estão entre os sistemas gráficos mais belos e elaborados que se conhecem, mas só podem ser usados por “autênticos” Kadiwéu.

Pinturas Asurini

Dentre os Spas mais visitados está o dos Asurini, por sua enorme gama de elementos e lindos grafismos. O povo Asurini quase chegou a extinção, a população que em 1930 era de 150 indivíduos, chegou a atingir o seu nível mais baixo em 1982 quando contava com 52 pessoas, mas a nação voltou a crescer em um nível seguro a partir de 1992. Dentre as duas atividades que mais caracterizam a cultura Asurini estão o xamanismo, desempenhado pelos homens, e a arte gráfica desenvolvida pelas mulheres principalmente na pintura corporal, na tatuagem e na ornamentação da cerâmica.

O padrão mais presente entre os Asurini é o Tayngava, traços parecidos com os desenhos gregos que permitem a reprodução infinita. Tayngava vem da palavra ayngava (ayng), que quer dizer réplica, medida, imagem, adicionada do prefixo “t” (que indica possuidor humano), e passa a significar “imagem do ser humano”. É também um objeto ritualístico utilizado pelos xamãs em diversos rituais, uma figura antropomórfica feita de taquaras e encapado com algodão.

 
Bem caracterizada por seu adorno labiaĺ, o m'berpót e com suas tiaras de penugem de urubu-rei, as terapeutas Zo’é são especialistas na aplicação de terapêuticos de uso tópico associados ao Urucum.

Os Spas Pihin talvez tenham sido a melhor idéia no que diz respeito a integração social das etnias indígenas à sociedade moderna sem comprometer seus aspectos culturais básicos; são localizados próximos a reservas indígenas importantes nos 27 estados brasileiros, os funcionários são membros das próprias reservas e o ecoturismo e incentivado em todas as suas frentes. Mas a melhor contribuição deste novo conceito em Spa é a promoção do melhor que o povo brasileiro pode oferecer de forma genuinamente genial.

domingo, 1 de setembro de 2013

Receita em Tupi antigo para o preparo do cauim


Um passo bastante importante para resgatar a cultura 'Nova Tupi' foi a de recriar industrilamente a bebida de nosso povo de raiz indigena, o Cauim.

O cauim é feito a partir da mandioca fermentada e tem um importante papel ritualístico. Uma das primeiras dificuldades que tive em preparar o cauim de modo cientifico foi a de nomear as fases do processo de produção, cada processo deveria ser meticulosamente descrito em sua língua nativa – o Tupi Antigo.

No texto ‘Conversa do cacique Tatamirim com um Português’  (Eduardo de Almeida Navarro – Método moderno de Tupi Antigo) encontramos todos os nomes em detalhe. Conciliei o texto e diversas pesquisas em campo com a produção da própria bebida em escala reduzida.

Sugiro fortemente que não repitam esse procedimento em casa - é importante dizer que sou um profissional do mercado de bebidas, com domínio em processos  de produção de bebidas alcoólicas. Este processo apresenta diversos riscos, posto que a mandioca g.e. Manihot esculenta porta grande quantidade de acido cianídrico.

Para consumo humano, a principal característica é que as cultivares apresentem teores de ácido cianídrico (HCN) nas raízes abaixo de 50 ppm ou 50mg de HCN/quilograma de raízes frescas. O teor de HCN varia de acordo com o cultivo, o ambiente e com a idade de colheita.

 Alem da possibilidade de envenenamento com o cianeto, existe o risco de contagio com patogênicos diversos tais como o konzo, salmonela, etc..

Para esta experiência utilizei a Manihot utilisima por ter uma quantidade quase 50 vezes menor de HCN e por ter maior concentração de açúcar.

Segue o texto e estudo de vocabulário:

- Abá-pe kûeî Kunha?
- Kaûĩapó-sara
- Mara-neme-pe kûeî kunhã Kaûï apó-û?
- Pitanga ‘ar-eme, marana r-enondé, maran-iré,
- oré amõ t-obaîara îuka-reme, kunumĩ r-embé mombuka îabi’õ.
- Marã-ngatu-pe kunhã kaûĩ apó-û
- Akaîu kytĩ-ana ungûá pupé o-îo-sok. O Pó pupé
- konipó tepiti pupé, a’e t-y amĩ-î.
- A’e riré, t-y-pûera ygasaba pupé moín-i.
- A’e-pe aîpí abé kaûĩ-namo o-î-monhang?
- Pá. Kunhã-maku aîpĩ abé Kaûĩ o-î-xu’u-su’u. Ygasaba o-îo-s-eî,
- t-y-pûera r-esé i mopó. I mopor-iré, i pupé i nomun-i.
- Abá-pe kûeí kunhã, t-y-pûera mopupu(ra)-sara?
- Morubixaba r-emirekó. Akaîu sak-ara Ka’ioby sy.
- Pysaré t-obaîara îkuá-sar-ama poraseî, o-nhe’engá.
- Abá-pe kûeí kunhã, t-y-pûera mopupu(ra)-sara?
- Abá ka’u pukuî i karu-e’ym-i.
- E’i-katu-pe kunhã kaûĩ gû-abo?
- A’an. Kaûĩ gû-ara abá nhõte. A’e asoîaba o-î-mondeb
- akangatara béno. I ka’u abé, opakatu i xabeypor-i.

            FASES DE PRODUÇÃO

Com este texto podemos descrever o processo em seis fases distintas:

1 - Aîpi Kytĩ-ana
Todo o processo de produção do cauim deve ser feito por mulheres. Aqui elas cortam e descascam a mandioca, a submetem a um primeiro cozimento até que esteja no ponto de maceração. No meu experimento use 3,9kg de mandioca;
1 - Aîpi Kytĩ-ana

2 - Ungûá pupé o-îo sok
Elas então colocam os talos de mandioca no Ungûá (pilão indigena) e socam por algumas horas. No meu experimento soquei por aproximadamente 4 horas;
2 - Ungûá pupé o-îo sok

3 - Tepiti pupé a’e t-y amĩ-î
A seguir pode-se separar o amido do Tucupi (soro que se desprende da massa) com o uso do Tepiti. Pulei este processo para produzir a mandioca nos moldes das tribos pesquisadas (Ye’kuana, Waurás e Mehinak);
3 - Tepiti pupé a’e t-y amĩ-î

4 - Aîpi o- su'u su’u I nomu
Trata-se do processo de mastigar e cuspir a mandioca na Ygassaba. Para este processo os índios usam a amilase da saliva para quebrar a molécula de amido em açucares. Jovens virgens de 12 a 16 anos chamadas de Kunhã-Muku se incumbim do su’u su’u (mastigação) por uns 4 minutos e o consequente nomu (cuspem a massa resultante de volta no Ygasaba). No meu experimento tive dificuldade em encontrar jovens virgens, portanto foi eu mesmo que mastiguei e cuspi;
4 - Aîpi o- su'u su’u I nomu

5 - T-y-pûera mopupu ra–sara
As fervedoras de caldo, chamadas de Mopupura-sara fervem a mistura até que o caldo atinja o estagio de quase ferver;
5 - T-y-pûera mopupu ra–sara

6 – O serviço do cauim é feito pelas ‘Kunhã-Maku’ – lindas moças da tribo.
‘Kunhã-Maku’


            TRADUÇÃO DO TEXTO

- Abá-pe kûeî Kunha?
- Quem são aquelas mulheres?

- Kaûĩapó-sara
- (São) as fazedoras de cauim.

Utilizei os utensílios das tribos pesquisadas - um Tipiti - Ye'Kuana de Roraima, um Ygasaba Waurá (também chamado de Hejé em idoma Waurá) Xingú MT e um Kuté ( de Beijú) Mehinak - Xingú MT

- Mara-neme-pe kûeî kunhã Kaûï apó-û?
- por ocasião de que aquelas mulheres fazem cauim?

- Pitanga ‘ar-eme, marana r-enondé, maran-iré,
ar – nascer
enondé (r-, s-) – antes de
   Ex. Mba’e r-esé-pe ere-sem xe karu îanondé?
   Porque saíste antes que eu comesse?
- Por ocasião do nascer de uma criança, antes das guerras, apos as guerras,
Macerei a mandioca por quatro horas

- oré amõ t-obaîara îuka-reme, kunumĩ r-embé mombuka îabi’õ.
Mombuk – (trans) furar
Îabi’o – a cada, a cada vez que
    Ex Nde só îabi’o, xe só-û-ne.
    A cada vez que fores, eu irei
- por ocasião de nosso matar de algum inimigo, a cada furar de lábios dos meninos.
Embé (te) – lábio inferior, beiço, borda
- Marã-ngatu-pe kunhã kaûĩ apo-û
- De que maneira as mulheres fazem o cauim.
com o kuté, coloquei o beiju no Ygasaba, deixei que descansasse para que as enzimas da minha saliva convertessem o amido em açucares

- Akaîu kytĩ-ana ungûá pupé o-îo-sok. O Pó pupé
ungûá – socador, batedor, pilão
sok (îo) – (trans.) socar, pilar, bater
- A cortadora de caju no pilão, soca-os com sua mão

- konipó tepiti pupé, a’e t-y amĩ-î.
- com o tepiti (prensa de palha), ela espreme o caldo.
Usei a levedura que apareceu naturalmente na mandioca para para a fermentação 
- A’e riré, t-y-pûera ygasaba pupé moín-i.
Moín – (trans) por, colocar
Y (t-, t-) – sumo, caldo, liquido, urina; rio
- Apos isso, o caldo (extraído) dentro de uma talha põe.

- A’e-pe aîpí abé kaûĩ-namo o-î-monhang?
Aipí – aipim
- Elas com a mandicoa, o cauim também é feito? (lit. – Elas também usam a mandioca para fazer o cauim?)
A fermentação aconteceu por três dias, mas reparei que ate o sétimo dia as bolhas não paravam de subir.
a medição com o densimetro foi prejudicada pela grande densidade da 'goma de tacacá'

- Pá. Kunhã-maku aîpĩ abé Kaûĩ o-î-xu’u-su’u. Ygasaba o-îo-s-eî,
su’u-su’u – (trans.) mastigar
Ygasaba – Talha de fazer cauim
- Sim, as moças produtoras mastigam o aipim, lavam a talha,

- t-y-pûera r-esé i mopó. I mopor-iré, i pupé i nomun-i.
Nomun – (intr.) cuspir
Mopor – (trans.) encher, cuspir
- A enchem com o caldo (extraído). Após enchê-la, cospem dentro dela.

- Abá-pe kûeí kunhã, t-y-pûera mopupu(ra)-sara?
Mopupur – (trans.) ferver
- Quem (são) aquelas mulheres - as fervedoras de caldo (extraído)?

- Morubixaba r-emirekó. Akaîu sak-ara Ka’ioby sy.
- As esposas do cacique. A socadora de caju (é) mãe de Caiobi.

- Pysaré t-obaîara îkuá-sar-ama poraseî, o-nhe’engá.
Poraseî – (intr. ) dançar
- A noite toda, os futuros matadores do inimigo dançam, cantando.

- Abá ko’yr o-ka’u o-ína. Kaûĩ me’eng-ara kunhã-muku-porang-a.
Ka’u – beber cauim
- Os homens estão bebendo agora. As moças que dão o cauim (são) bonitas.

- Abá ka’u pukuî i karu-e’ym-i.
- Durante o beber de cauim dos homens, eles não comem.

- E’i-katu-pe kunhã kaûĩ gû-abo?
- Podem as mulheres beber o cauim?

- A’an. Kaûĩ gû-ara abá nhõte. A’e asoîaba o-î-mondeb
mondeb – (trans.) por, enfiar, vestir.
        Ex. A-î-mondeb xe aoba.
               Visto minha roupa.
asoîaba – manto de penas
- Não. Os bebedores de cauim (são) os homens, somente. Eles vestem mantos de penas.

- akangatara béno. I ka’u abé, opakatu i xabeypor-i.
Sabeypor (intr.) embebedar-se
Akangatara – cocar
Abé ( ou BÉ) – logo após, logo depois de, assim que; abé e be também significa desde
- E cocares também. Logo após o beber de cauim deles, todos eles embebedam-se.

Contribuição indígena ao Brasil: lendas e tradições, usos e costumes, fauna e flora, língua, raízes, toponímia, vocabulário, Volume 1 - Irmão José Gregório, editora Ubee.
As lindas 'Kunhã-Maku'  (servidoras de Kauim) fazem o papel de garçonete no lindo restaurante da cultura Nova Tupi